BRE: Reflexão XVI Domingo do Tempo Comum – “Mc 6,30-34: Para ovelhas abatidas, Pastores repousados!”

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Por: Dom André Vital Félix da Silva, SCJ

Texto também disponível em: dehonianosbre.org

Domingo passado ouvimos a narração do envio missionário dos 12 apóstolos (Mc 6,7-13). Entre as várias recomendações feitas por Jesus, estava justamente aquela de não levar nada para o caminho “a não ser um cajado apenas” (6,8). Sem dúvida, este é o único elemento que distingue a missão dos discípulos, isto é, o cajado como símbolo do pastor, pois as outras coisas permitidas (túnica e sandálias) qualquer viajante poderia levar.

Mesmo não sendo uma perícope imediata ao mandato missionário, o evangelho de hoje inicia retomando o mesmo contexto da missão: “Os apóstolos reuniram-se com Jesus e contaram tudo o que tinham feito e ensinado”. Poderíamos dizer que, nesse momento, os enviados compartilham com o Mestre a missão realizada, certamente com seus momentos de sucesso, mas também as dificuldades, frustrações, pois dessas eles não seriam isentos, uma vez que o próprio Senhor já lhes havia advertido (“Se em algum lugar não vos receber…” Mc 6,11).

Interessante que os discípulos ao voltarem, e naturalmente cansados, não pedem ao Mestre que lhes dê uns dias de folga para se recuperarem da viagem, mas é o próprio Jesus quem se antecipa e os convida: “Vinde sozinhos para um lugar deserto e descansai um pouco”. O convite de Jesus não é apenas uma ordem para que os discípulos se afastem de todos e encontrem um lugar sossegado onde ninguém os incomode. Antes de tudo, é bom notar que Jesus não diz para os seus discípulos: “Ide e buscai um lugar deserto para repousar!!!” Mas é Jesus quem os conduz ao verdadeiro repouso capaz de refazer as forças e assim poderem responder às demandas da missão que são constantes.

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A expressão (“Vinde”, grego deute) que aparece no início do evangelho de Marcos associada ao convite de Jesus para segui-lo (1,17) também pode ser traduzida por “Levantai-vos”. Nessa riqueza semântica podemos compreender o convite de Jesus aos discípulos como renovação do primeiro chamado (“Vinde”), uma exigência para não desanimar diante do natural cansaço da missão, mas também uma advertência para que eles não busquem o seu repouso de qualquer forma, deitando-se em qualquer chão (“Levantai-vos”).

A travessia junto com Jesus para um lugar deserto já é repouso que refaz as forças, pois Ele é o Bom Pastor. O missionário que, cansado do labor, cair na tentação de incluir no seu programa de descanso o afastamento do Mestre, a dispensa da oração, o isolamento-fuga dos demais, talvez encontre apenas um lugar vazio para entreter-se, mas não o deserto desejado para recuperar a lucidez da sua vocação e a força necessária para perseverar na fidelidade de sua missão. Há missionários, sem dúvida muito dedicados , mas que caem num ativismo: “que não tinham tempo nem para comer” (no grego: oude fagein eukaipoun, nem tinham tempo bom para se alimentar) e, portanto, se desgastam dando tudo o que têm, mas esquecendo que a missão não é dar o que se tem, mas compartilhar o que se recebe do Mestre; sem ter tempo para estar a sós com Ele e lhe permitir que dê, depois do trabalho só restará ao discípulo o cansaço, fadigas de toda ordem, vazio e desejo de estar longe de tudo e de todos, inclusive do Senhor. Tal escolha resultará numa vida remendada com parêntesis, numa desconexão existencial, onde inclusive o indispensável alimento espiritual é colocado na lista do não fazer, quando no dia do descanso necessário e merecido. Indubitavelmente, o ser humano tem necessidade de momentos de descanso, onde a lógica flexibilidade de horário e a necessária redução de atividades não se discutem, porém o missionário não abre mão do que lhe é vital; por isso, não exclui da sua lista em tempos de descanso o que representa valores irrenunciáveis.

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A tentação atual de identificar vocação-discipulado-missão com atividades e compromissos pastorais pode criar uma mentalidade funcional, onde os discípulos têm carga horária a cumprir e repouso semanal a exigir. É certo que dos colegas de trabalho nos despedimos quando termina a semana, porém, o Mestre, somos convidados a seguir todo dia sem pausas nem dispensas, pois sem Ele nada podemos fazer. Ele não tira folga de nós, apesar de lhe darmos tanto trabalho, pois continua a ter o mesmo sentimento e compromisso: “Viu uma numerosa multidão e teve compaixão, porque eram como ovelhas sem pastor”.

Hoje o cansaço não é apenas das ovelhas, mas também dos pastores que se afastam do Mestre que os chamou para junto de si e lhes confiou a missão, que deve ser vivida com compaixão pelo seu rebanho. Pastores cansados são aqueles que reduziram a missão a atividades controladas por um livro de ponto e se esqueceram que renunciar ao essencial da sua opção fundamental (oração, especialmente a eucaristia), inclusive no descanso legítimo da segunda-feira e das férias anuais, mantê-los-á num vazio existencial onde o peso das atividades do horário comercial os esmagará, e o momento de folga os alienará.

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Dom André Vital Félix da Silva, SCJ. Bispo da Diocese de Limoeiro do Norte – CE. Mestre em Teologia Bíblica pela Pontifícia Universidade Gregoriana.

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