BRE: Reflexão Solenidade do Corpo e Sangue de Cristo – “Mc 14,12-16.22-26: Eucaristia: presença oferecida em comunhão”

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Por: Dom André Vital Félix da Silva, SCJ

Texto também disponível em: dehonianosbre.org

A Solenidade de Corpus Christi reafirma a centralidade do Mistério Pascal celebrado na Eucaristia, que cotidianamente alimenta a Igreja na sua peregrinação rumo ao banquete eterno. Para além de motivações apologéticas ou devocionais, a Liturgia de hoje nos convida a mergulhar no Mistério de um Deus, que por amor, se faz presente no meio do seu povo para nutri-lo não apenas com um alimento material, mas com a sua própria presença: “Isto é o meu corpo… Isto é o meu sangue”, estabelecendo com ele uma comunhão indestrutível.

A primeira leitura (Ex 24,3-8) está emoldurada por um refrão-compromisso que evidencia a atitude fundamental do povo que celebra o rito da aliança: “Faremos tudo o que o Senhor nos disse” (vv. 3.7).  Sem a obediência à Palavra do Senhor, a celebração da Aliança será apenas a execução mecânica de ritos prescritos na Lei, mas que não garantem os frutos do pacto com o Deus da criação que libertou o seu povo das garras do faraó.

Na segunda leitura (Hb 9,11-15), o autor sagrado destaca a superioridade do sacrifício de Cristo, a sua entrega ao Pai que se atualiza no Memorial da sua paixão, morte e ressurreição. A celebração da Eucaristia não se compara com nenhuma outra expressão de culto, pois não é uma entre as tantas formas de adorar a Deus; ela representa, na sua essência, o único, suficiente e agradável culto a Deus, pois não é obra de mãos humanas; nela não se oferecem elementos da criação (animais, frutos da terra etc.), mas nela o próprio Deus se oferece: “Cristo se ofereceu a si mesmo a Deus como vítima sem mancha”. A longa tradição das religiões, antes mesmo do judaísmo e do cristianismo, atesta a presença de ritos nos quais se faziam oferendas às divindades cultuadas. Na maioria dos casos, essas oferendas pretendiam apaziguar o furor das divindades diante da infidelidade, do pecado dos seus oferentes. A Eucaristia não é um ritual de oferenda de coisas para agradar os deuses, mas é a grande oferta que o próprio Deus faz de si mesmo em seu Filho àqueles que Nele acreditam e o amam: “Pela sua morte, ele reparou as transgressões cometidas no decorrer da primeira aliança”. Aqui está a grande novidade do Cristianismo.

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Quem acredita que a principal diferença que há entre o sangue de bodes e bezerros no culto do templo, ou o sangue de galinhas no terreiro, e o sangue de Cristo derramado na cruz, é apenas uma questão de subjetivismo religioso-cultural, esse não entendeu nada do sacerdócio de Cristo, do seu valor salvífico. Reduzir a celebração da oferta de Cristo a um conjunto de rituais marcados por um culturalismo folclórico é rejeitar a expressão mais verdadeira e completa do seu amor, isto é, a liberdade de sua entrega que, por sua vez, qualifica absolutamente a sua superioridade: “Ninguém tira a minha vida, eu a dou livremente” (Jo 10,18); é não reconhecer que “Ele é mediador de uma nova aliança”. Se as oferendas e os sacrifícios de templos e terreiros, por serem desprovidos de liberdade de escolha para oferecer-se, não passam de objetos de culto, o sacerdócio de Cristo superou todas as tentativas e possibilidades de o homem oferecer algo a Deus. Na liturgia inaugurada e realizada por Jesus, com a sua paixão, morte e ressurreição, e cujo memorial se realiza na Eucaristia, não se faz distinção entre sacerdote, altar e oferta.

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Na narração da instituição da Eucaristia, segundo Marcos, encontramos os elementos essenciais do gesto memorial de Jesus. Antes de tudo, a ceia-memorial que Jesus fez com os seus discípulos é verdadeiramente pascal: “O Mestre mandou dizer: onde está a sala da casa que vou comer a Páscoa com os meus discípulos?”. Destarte, a Eucaristia não é apenas um ato isolado de Jesus; ainda que não tivesse necessidade de ninguém para ajudá-lo para realizá-la, Ele quis comê-la com os seus. Ainda hoje Ele continua solicitando as nossas casas para que ela aconteça. Cada igreja construída por mãos humanas torna-se esse “andar de cima”, símbolo da “tenda maior e mais perfeita”, onde o Mestre continua a celebrar a sua Páscoa. Infelizmente, muitas vezes transformamos “este andar de cima”, em porão de baixo com as nossas práticas medíocres e “criatividades selvagens”, que deformam o caráter elevado do que celebramos e reduzem a maior obra da salvação do Deus amor em experiências circulares onde nos tornamos o centro, e horizontalistas onde não se vê mais do que o rasteiro da vida.

Como o Cristo pregado na cruz foi escândalo e loucura para quem não acreditou no seu amor-oblativo, assim também a profissão de fé na Eucaristia, para quem não fez a experiência do encontro com esse amor-oblativo, é incompreensível e inaceitável. Continuar a oferecer bodes e galinhas pode até ser expressão de religiosidade, mas Deus quer de nós mais do que coisas, Ele nos quer, e para dizer isso, Ele se-nos-deu. A Eucaristia é a grande e irrefutável prova disso. Crer nela é a única resposta que Ele espera de nós, pois será o sinal de que recebemos o que Ele nos dá: sua presença oferecida em comunhão.

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domandrevital

Dom André Vital Félix da Silva, SCJ. Bispo da Diocese de Limoeiro do Norte – CE. Mestre em Teologia Bíblica pela Pontifícia Universidade Gregoriana.

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