BRE: Reflexão Solenidade de Pentecostes – “Jo 20,19-23: Por que portas fechadas se o Lado está aberto?”

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Por: Dom André Vital Félix da Silva, SCJ

Texto também disponível em: dehonianosbre.org

Há cinquenta dias entrávamos na igreja acendendo nossas velas no Círio Pascal e proclamando a ressurreição do Crucificado. Hoje na Solenidade de Pentecostes não acendemos mais nossas velas (inclusive o Círio será apagado no final da celebração), mas revestidos pela Força do alto, o Espírito Santo prometido, somos “acendidos” pelas suas línguas de fogo para realizar a missão que o Senhor nos confia: “Como o Pai me enviou, também vos envio. Dizendo isso, soprou sobre eles…

Durante todo o Tempo Pascal fizemos um percurso de interiorização (adentrando na igreja, renovando a nossa consciência de batizados…) para na intimidade com o Senhor e, sobretudo, ouvindo sua Palavra e repartindo o seu Corpo e Sangue, deixar-nos instruir por Ele em vista da missão (At 1,1: “Durante quarenta dias apareceu-lhes e lhes falou…”). Pentecostes é, portanto, o momento de escancarar as portas da Igreja e renovar o nosso compromisso missionário, como nos lembrou bem o Senhor antes de subir aos céus: “Ide por todo o mundo…

A perícope do evangelho de hoje apresenta os elementos fundamentais da experiência dos discípulos com o Senhor ressuscitado, que lhes concede o dom do seu Espírito e os envia em missão.  Sem esta experiência, a Igreja não poderá cumprir a sua missão; talvez realize muitas obras importantes e úteis para a sociedade humana, mas não estará plenamente em sintonia com a missão que recebeu, isto é, continuar a obra de Jesus, que veio ao mundo para testemunhar o amor do Pai, que concede o dom da salvação através do perdão que realiza a reconciliação e garante a plenitude da vida e não apenas algumas realizações temporais. Para isso, a presença e atuação do Espírito Santo são imprescindíveis, pois é Ele quem ensina tudo e recorda tudo o que Jesus disse (cf. Jo 14,26).

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Diante do medo e da busca de segurança: “Estando as portas fechadas onde se achavam os discípulos, Jesus coloca-se no meio deles”. Eis o ponto de partida para a comunidade em crise recuperar a sua identidade e missão: reconhecer a centralidade do Senhor morto e ressuscitado. Não podemos negar que hoje em nossos ambientes eclesiais e eclesiásticos há muita concorrência para ocupar o centro. Muitas vezes o que fazemos ou dizemos chamam muito mais a atenção para nós mesmos do que apontam para o Crucificado que está vivo. Para garantir um público que nos siga, compartilhe, se fidelize, buscamos muitas vezes lhe proporcionar um bem-estar, tranquilidade, um imediato sentir-se bem. Porém, Jesus colocando-se no meio dos discípulos não lhes garante nada disso, mas pelo contrário anuncia-lhes: “A paz esteja convosco”. Mesmo que haja a possibilidade de traduzir essa expressão com o verbo “estar”, no grego não se usa o verbo “eiréne umin”, portanto, não expressa apenas um desejo (esteja) mas uma realidade, ou seja, entre a paz e os destinatários dela não há distância de tempo. Destarte, a paz é o próprio Senhor que se manifesta “com os seus” e não apenas os saúda com palavras. São Paulo reafirma esta convicção: “Ele é a nossa paz: de ambos os povos fez um só, tendo derrubado o muro de separação… por meio da cruz…” (Ef 2,14-16). Por isso, Ele entra com as portas fechadas, derrubando barreiras, e mostra-lhes as mãos e o lado: uma referência clara e explícita à sua morte na cruz.

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Enquanto insistirmos compulsivamente em tirar do centro da nossa vida cristã, mormente da celebração litúrgica, o Cristo assinalado com as marcas da cruz, recairemos no medo de testemunhá-lo, e por isso faremos de tudo para manter as nossas portas fechadas, garantindo assim um sossego ilusório, mas não a verdadeira paz. Reduziremos o memorial da sua paixão, morte e ressurreição a momentos de distração, prazerosos, uma efervescência de sentimentalismo à moda da casa, mas com pouca incidência na nossa vida da experiência do encontro com Aquele que não fugiu da cruz.

Assumir a missão exige a coragem de abrir as portas, mas isso só será possível se fixarmos o nosso olhar Naquele que tem o seu Lado aberto, ponto mais alto de sua fidelidade ao Pai que o enviou. É deste Lado aberto, o coração traspassado na cruz, que nasce a Igreja. No sangue e na água que jorraram (cf. Jo 19,34), contemplamos o Batismo e a Eucaristia, os dois sacramentos fundamentais que respectivamente gera e alimenta a Igreja. É justamente nesse momento da hora de Jesus na cruz que o Espírito é entregue, verdadeiro anúncio profético do Pentecostes (cf. Jo 19,30). Sem o dom do Espírito, os discípulos do Crucificado não seriam capazes de acreditar que Ele está vivo. A experiência do encontro com o Ressuscitado no cenáculo, a casa fechada, é convite para subir o calvário, campo aberto, fora dos muros, de onde se pode enxergar o imenso e vasto campo da missão.

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Dom André Vital Félix da Silva, SCJ. Bispo da Diocese de Limoeiro do Norte – CE. Mestre em Teologia Bíblica pela Pontifícia Universidade Gregoriana.

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