BRE: Reflexão I Domingo da Quaresma – “Mc 1,12-15: Entre o paraíso e o deserto”

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Por: Dom André Vital Félix da Silva, SCJ

Texto também disponível em: dehonianosbre.org

A narração das tentações de Jesus segundo Marcos se diferencia indiscutivelmente daquelas de Mateus e Lucas, que por sua vez, nos dão detalhes do conteúdo das investidas do diabo, que pretendia desviar Jesus da sua missão, propondo-lhe um caminho sem cruz, com muitas facilidades, mas incorrendo numa absoluta desobediência ao Pai, a ponto de trair o seu projeto de salvação.

Apesar de sua brevidade, Marcos nos transmite os elementos essenciais desse episódio do início da vida pública de Jesus. Não podemos esquecer que a narração das tentações está intimamente relacionada com o acontecimento anterior, isto é, o batismo de Jesus. Marcos estabelece uma conexão entre os dois fatos quando diz: “E imediatamente o Espírito o levou para o deserto” (Mc 1,12). Vale salientar que em ambos acontecimentos o Espírito aparece como um dos protagonistas principais. É ele que desceu do céu no momento em que Jesus fora batizado e é Ele mesmo que leva o Senhor para o deserto. Ademais, este Espírito é o mesmo que pairava sobre as águas no princípio de tudo, na primeira criação (cf. Gn 1,1s).

Portanto, estamos diante de uma chave de leitura fundamental para compreender não apenas as tentações, mas como Jesus as vence. Se a primeira criação, a obra do poder da Palavra de Deus e do sopro do seu Espírito, foi submetida à vaidade por causa da desobediência do ser humano (cf. Rm 8,20), que preferiu ceder às tentações do mal, agora a nova criação inaugurada pelo Filho de Deus, o Primogênito dos mortos, se estabelece a partir do combate e derrota do mal nas suas várias expressões, sobretudo as escravidões nos diversos desertos da vida (situações de pecado).

Marcos utiliza um verbo muito forte para indicar a ação do Espírito sobre Jesus, traduzi-lo simplesmente por “conduzir” ou “levar” enfraquece o seu impacto. Esse verbo pode ser traduzido também por “expulsar”, “levar para fora” (grego ekballo, literalmente: ek para fora; ballo: lançar. Marcos utiliza este verbo dezessete vezes das quais 11x para indicar a expulsão do demônio). A Bíblia grega (LXX) utiliza-o quando narra a expulsão de Adão e Eva do paraíso: “E Deus o expulsou do paraíso” (Gn 3,24).

A Sagrada Escritura apresenta muitas vezes a oposição que existe entre paraíso e deserto. Se o paraíso é o lugar da convivência com Deus, da paz estabelecida, da plenitude da vida, da abundância dos bens, o deserto, por sua vez, representa o lugar da purificação, da provação, das privações de água e de alimento, do combate contra as feras e os inimigos. Contudo, vencendo as tentações do deserto, o povo pode prosseguir o seu caminho rumo à terra prometida, ao paraíso.

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Assim como Adão e Eva, desobedientes, comeram do fruto proibido, isto é, rejeitaram o projeto de Deus e foram expulsos do Paraíso para o deserto, o novo Adão é também “expulso” para o deserto pois é enviado por Deus para salvar o velho Adão. Por isso, vai ao encontro dele, devendo ir aonde o homem pecador se encontra, isto é, no deserto.

Quando o Espírito expulsa Jesus para o deserto, não o faz porque Ele é desobediente, mas pelo contrário, porque é o Filho Amado, em quem o Pai se compraz (Mc 1,11). Por conseguinte, se ama é obediente. Porém, essa obediência será vivida na busca da criatura por excelência que perdera o paraíso mas que não deixou de ser amada por Deus, que lhe prometeu a possibilidade de retorno (Gn 3,15). Se o velho Adão pecou porque recusou alimentar-se da Palavra de Deus, e apoderou-se do fruto proibido, o novo Adão jejuará por quarenta dias no deserto em solidariedade com o homem pecador e desencaminhado para trazê-lo de volta para o caminho do Paraíso, ensinando-lhe a alimentar-se com o verdadeiro pão, o alimento que não perece, a sua palavra.

A encarnação do Filho de Deus que culminará na sua paixão, morte e ressurreição foi um grande êxodo que o “expulsou” do paraíso (seio do Pai), atravessando a criação transformada em terra árida por causa do pecado do ser humano, mas que alcançou o seu ponto alto na reconciliação que realizou com a sua morte e ressurreição, a fim de abrir de novo as portas do paraíso. Marcos, para dizer que Jesus é o novo Adão que estabelece a paz paradisíaca, afirma “vivia entre os animais selvagens, e os anjos os serviam”.

A tentação que o ser humano ainda deve vencer hoje, apesar de não poder negar o seu desejo de paraíso, isto é, felicidade plena, é optar pela permanência no deserto, pois todas as vezes que cede às tentações, recusa-se à mudança de vida, à conversão. O tempo completou-se dizia Jesus, é o tempo de empreender o caminho de saída do deserto. O reino de Deus está próximo; se o homem por si só não consegue aproximar-se de Deus, Ele mesmo toma a iniciativa e inaugura o seu paraíso já aqui no nosso deserto. Mas é preciso converter-se, isto é, mudar de direção, voltar-se para Ele para reconhecer que isto está acontecendo, e crer no evangelho, nessa boa notícia de que não fomos criados nem no deserto nem para o deserto, mas no paraíso e para ele. A quaresma é tempo favorável para atravessar o deserto, mas também oportunidade de encontrar-se com Aquele que indica o caminho seguro para o paraíso, ajudando-nos a vencer as tentações de permanecer no deserto.

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Dom André Vital Félix da Silva, SCJ. Bispo da Diocese de Limoeiro do Norte – CE. Mestre em Teologia Bíblica pela Pontifícia Universidade Gregoriana.

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Uma resposta para BRE: Reflexão I Domingo da Quaresma – “Mc 1,12-15: Entre o paraíso e o deserto”

  1. Valéria Lopes disse:

    Simplesmente fantástico!!!!
    Dom André, o senhor é único!!!
    É admirável como o senhor consegue transmitir tão clara e ao mesmo tempo tão profundamente a Palavra de Deus!!!
    Que o PAI poderoso sempre o ilumine!

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