BRE: Reflexão VI Domingo Tempo Comum – “Mc 1,40-45: Ele assumiu nossas dores”

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Por: Dom André Vital Félix da Silva, SCJ

Texto também disponível em: dehonianosbre.org

A narração da cura do leproso conclui os sete pontos que Marcos reuniu no início do seu escrito (1,16-20.21-22.23-28.29-34.35.36-39.40-45) para apresentar o anúncio da Boa Notícia de Jesus. Para nós que vivemos num contexto diferente daquele de Jesus podemos pensar que se trate apenas de mais uma cura realizada por Jesus em favor de um doente. Porém, esse não é um doente qualquer, é um leproso, uma pessoa marcada não somente por uma doença física, mas excluída da convivência familiar, social e religiosa. É um morto-vivo que toma a decisão de ir ao encontro da vida. Três atitudes do leproso testemunham a luta contra a sua morte física, moral, religiosa e social. Antes de tudo, ele toma uma decisão contrariando os condicionamentos legais a ele impostos: “Vai ao encontro de Jesus”. Contudo, antes de o leproso tomar essa decisão, Jesus já tinha chegado até ele através do anúncio que certamente outras pessoas lhe fizeram; quem sabe até mesmo outros leprosos curados.

Portanto, é o testemunho de pessoas que encontraram Jesus que motiva o doente a ir ao seu encontro. Mesmo sendo proibido de aproximar-se das pessoas, e ser obrigado a morar em lugares desertos, a sua convicção de fé o leva a romper essas barreiras. O leproso, segundo a prescrição da lei (cf. Lv 13,45s), devia vestir roupas rasgadas (símbolo da perda da sua dignidade de pessoa), ter os cabelos despenteados (assemelhando-se às feras), cobrir o bigode e gritar: “Impuro, impuro!”. Além de não poder morar no povoado e ser privado de qualquer participação no culto e na vida de sociedade.

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A segunda atitude: “perto de Jesus, ajoelhou-se”. Mais do que uma simples referência, o leproso indica a sua total disponibilidade diante de Jesus, não lhe impõe nada. Antes mesmo de lhe fazer o pedido, demonstra que reconhece o poder de Jesus. Se os leprosos deveriam manter-se à distância, esse leproso descumpre a Lei, e cai aos pés de Jesus, isto é, aproxima-se ao máximo. A cura não é apenas ter a pele purificada, mas exige estabelecer relacionamentos com os semelhantes, o que só é possível na proximidade.

A terceira atitude revela a capacidade de obediência do enfermo, isto é, a expressão mais sensata e coerente de quem tem fé. A sua súplica não é formulada com um imperativo: “Cura-me, Senhor”, mas deixa o Senhor totalmente livre para decidir: “Se queres, tens o poder de purificar-me”. O desejo manifestado pelo leproso não é apenas de uma cura, mas de ser purificado (grego: me katharisai, purificar-me, limpar-me), isto é, mais do que livrar-se de uma doença, é ser reabilitado à convivência familiar, ser acolhido no povoado, ser admitido aos lugares de culto. Numa atitude de fé o leproso troca a deprimente frase que lhe era obrigado gritar: “Impuro, impuro!”  por uma súplica por misericórdia. E Jesus, movido de compaixão, atende o seu pedido: “Eu quero, sê purificado!

Quando Jesus curava um cego, um aleijado, um mudo etc., não havia necessidade de o doente curado se apresentar ao sacerdote para a declaração da sua purificação. Mas se tratando de lepra ou doenças afins era preciso uma atestação oficial, pois incluía a questão da pureza ritual. Por isso Jesus manda que ele se apresente ao sacerdote e cumpra todas as prescrições legais a fim de que seja realmente aceito nos vários ambientes e situações, retome a vida normal.

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Declarada a sua purificação como reconhecimento de que estava curado, o leproso voltava a viver como membro de uma sociedade, de uma família, de uma comunidade religiosa. Portanto, se reabilitavam as suas várias dimensões de pessoa humana que se relaciona com o semelhante, consigo mesmo e com Deus, de forma digna e justa.

Detalhe importante na narração que indica as consequências da decisão de Jesus de purificar o leproso foi que Ele “estendendo a mão tocou nele…” Não só o leproso transgrediu as prescrições legais, mas o próprio Jesus, pois quem tocasse num leproso também se tornava impuro. Indubitavelmente, Jesus poderia ter purificado apenas com a sua palavra, mas fez questão de tocar no doente. Mais adiante na conclusão da perícope se dirá: “Jesus não podia mais entrar publicamente numa cidade: ficava fora, em lugares desertos”. De fato, Ele assumiu nossas dores, tomou o nosso lugar. Se o deserto era o lugar onde os leprosos deviam viver por causa da sua enfermidade, agora torna-se o lugar onde encontrar Jesus, pois Ele assumiu também o lugar onde estão os excluídos, os sofredores, os impuros. E se alguém quer encontrá-lo é preciso ir até lá: “E de toda parte vinham procurá-lo”.

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Dom André Vital Félix da Silva, SCJ. Bispo da Diocese de Limoeiro do Norte – CE. Mestre em Teologia Bíblica pela Pontifícia Universidade Gregoriana.

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