BRE: Reflexão IV Domingo Tempo Comum – “Mc 1,21-28: Autoridade coerente, obediência assegurada”

1jesus

Por: Dom André Vital Félix da Silva, SCJ

Texto também disponível em: dehonianosbre.org

Como meditamos no Domingo passado, Jesus começa a sua vida pública anunciando o Evangelho de Deus. Tal Evangelho não tem como conteúdo uma teoria sobre alguns temas relevantes da religião ou mesmo teses teológicas sobre Deus. Mas o cerne desse anúncio é o agir de Jesus, coerente com a missão que o Pai lhe confiara, em favor do ser humano aprisionado pelo poder do mal, e que muitas vezes tem dificuldade de acolher e reconhecer o seu ensinamento como fonte de libertação e salvação.

Marcos no início desse trecho nos dá três informações importantes para compreender o acontecimento narrado: “Na cidade de Cafarnaum, num dia de sábado, Jesus entrou na sinagoga e começou a ensinar”.

  • Cafarnaum significa em hebraico “aldeia de Naum”. Naum foi o profeta que anunciou a destruição de Nínive (632 a.C.). O homem possuído por um espírito impuro dirá a Jesus: “Vieste para nos destruir?” O ensinamento de Jesus é considerado por esse endemoniado como uma ameaça, pois provoca admiração por parte do povo, que agora começa a compreender a Escritura. Esse endemoniado representa um grupo, certamente o grupo dos mestres ali presentes que se incomodam com a reação positiva do povo diante desse novo ensinamento, a consequência imediata é serem desacreditados e perderem espaço e o controle das pessoas. Quando Jesus deixa Nazaré, vai morar em Cafarnaum, o nome do profeta Naum significa “consolador”, portanto Jesus realiza a promessa de Deus de consolar o seu povo, isto é, colocar-se ao lado desse povo que se sentia sozinho, abandonado, pois os seus mestres tinham já perdido a autoridade, uma vez que não eram coerentes com aquilo que ensinavam, o seu ensinamento ao invés de ajudar as pessoas a conhecerem a vontade de Deus, aproximando-as das Escrituras, tornava-se uma fonte de incompreensão sobretudo porque a incoerência das suas atitudes levava o povo a pensar que não era possível viver a Palavra de Deus. Pois se os mestres que a conheciam não a viviam, muito mais difícil seria para o povo colocá-la em prática, já que não tinha nem o acesso direto nem a instrução da Lei, eram totalmente dependentes dos mestres.

2biblia

  • Num dia de Sábado” aparece no evangelho como o dia por excelência do ensinamento de Jesus. E, de fato, torna-se muito significativo e coerente para Jesus fazer ressoar, nesse dia especial e consagrado, a Palavra do Pai sobretudo nos seus gestos. O dia de sábado era o dia de fazer memória de dois acontecimentos centrais da Lei: a Criação e o Êxodo. Na memória da Criação se celebrava o agir de Deus, tudo aquilo que criara com a onipotência da sua Palavra, por isso Jesus também indica que a sua palavra tem força e poder ao expulsar o espírito mau. Na memória do Êxodo se celebrava a revelação de quem é o Deus que tudo criou. Por isso, no início do livro do Êxodo, Moisés pergunta qual é o nome de Deus, que responde: “Javé, sou aquele que sou”. O endemoniado grita: “Sei quem tu és, o Santo de Deus”. Todo o evangelho de Marcos é um caminho de revelação de quem é Jesus. O próprio evangelista afirma: “Jesus é o Cristo, Filho de Deus” (1,1), e muitos, ao longo do evangelho, também fazem essa afirmação, porém sem segui-lo até a cruz não é possível verdadeiramente saber quem ele é.
  • Entrou na Sinagoga e começou a ensinar”. A Sinagoga para Jesus se torna o lugar de recuperar a memória da Criação e do Êxodo, já que tinha se tornado, por culpa dos mestres que não ensinavam com autoridade, isto é, porque não tinham coerência, o lugar do caos (falta de compreensão das Escrituras) e da escravidão (por causa da dominação ideológica dos mestres da Lei). Geralmente, Sinagoga se traduz por lugar da reunião (assembleia), porém tem um sentido mais dinâmico (grego syn: com; ago: ir, conduzir). Se a incoerência dos mestres da Lei, cujo resultado era a falta de autoridade no seu ensinamento, fazia da Sinagoga o lugar do aprisionamento, isto é, o povo não caminhava, não era conduzido para uma experiência de recriação e novo êxodo, Jesus, cujo ensinamento era reconhecido como credível, ou seja, tinha autoridade, é reconhecido como um verdadeiro Mestre, um novo Moisés. Seu ensinamento não se baseia em teorias ou especulações, mas na coerência de vida. A novidade do seu ensinamento não está numa nova escritura. Mas numa inédita postura frente à Palavra.

3jesus

Hoje se vive drasticamente uma crise em relação ao reconhecimento da autoridade, muitas vezes identificada como autoritarismo que infantiliza as pessoas e as torna ainda mais escravizadas. Corre-se o risco, inclusive, de se colocar em xeque a sua própria validade e necessidade. Contudo, é preciso reconhecer que não há autêntica autoridade se essa não for enraizada na coerência moral. Jesus não se impôs porque dispunha de uma força misteriosa que tirava a liberdade das pessoas a fim de submetê-las aos seus comandos. Mas a autoridade de Jesus era reconhecida pelo povo por causa da sua inegável coerência, o que naturalmente levava as pessoas a uma resposta de obediência que lhes garantia a liberdade e uma vida nova. Só quem é coerente pode ensinar com autoridade, pois testemunha que aprendeu a obedecer à verdade que liberta e não apenas a leis que se impõem.

4obediencia

domandrevital

Dom André Vital Félix da Silva, SCJ. Bispo da Diocese de Limoeiro do Norte – CE. Mestre em Teologia Bíblica pela Pontifícia Universidade Gregoriana.

Anúncios
Esse post foi publicado em Uncategorized. Bookmark o link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s