BRE: Reflexão Festa da Sagrada Família – “Lc 2,22-40: Família: real e sagrada”

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Por: Dom André Vital Félix da Silva, SCJ

Texto também disponível em: dehonianosbre.org

A Festa da Sagrada Família está muito bem inserida na Oitava do Natal, pois evidencia a verdade da Encarnação, isto é, Deus assumiu a nossa condição humana e, portanto, entrou no mundo como cada um de nós, nascendo em uma família. A família não é um simples aglomerado de pessoas que compartilham algumas coisas comuns, mas é a realização de um projeto de Deus para garantir a dignidade e a realização da vida. Nascendo de uma família humana, o Filho de Deus consolidou esse projeto do Pai. Cada criança gerada testemunha que a família não é uma opção entre outras para que haja a vida, mas é a condição fundamental para que essa vida tenha dignidade, respeito e alcance plenitude.

Dizer que a família é um projeto de Deus não é um discurso romântico ou mesmo um idealismo desencarnado, pois a família de Nazaré não foi uma família ideal isenta de dificuldades e sofrimentos, mas uma família que assumiu a verdade de tudo aquilo que lhe é próprio, por isso se tornou a família referencial pois nela evidencia-se a realidade mais fundamental da família como instituição divina e não apenas construção cultural.

A cena reportada no evangelho de hoje ressalta três situações inspiradoras para que a vida familiar, real e concreta, seja consolidada e realize-se como projeto de Deus para o bem das pessoas e da sociedade.

“Maria e José levaram Jesus a Jerusalém, a fim de apresentá-lo ao Senhor”: neste gesto não vemos apenas um cumprimento casuístico da Lei, mas antes de tudo, o testemunho de uma verdade basilar da existência humana. Levar Jesus ao templo significa que este filho, mesmo sendo deles (natural para Maria, e legítimo para José), não é uma posse dos pais. Gerar um filho não é adquirir um objeto; dar à luz uma vida não é simplesmente aumentar o número dos seres no mundo, mas conceber uma criança e assumi-la é aceitar uma missão, um verdadeiro sacerdócio, pois cuidar, amar o ser humano criado à imagem e semelhança de Deus é o culto mais elevado que se possa prestar ao Criador. Oferecer ao Senhor é reconhecer que tudo é Dele. Por outro lado, à medida que o ser humano se apropria dos bens, das pessoas, considerando-os seus de forma despótica, isolando-os de seu verdadeiro Senhor, então surgem as grandes ameaças à vida: manipulação ideológica deformando o sentido original da existência, dominação escravagista que estratifica os seres humanos em superiores e inferiores, destruindo assim a célula mater da sociedade e a condição fundamental para todos os seres humanos, isto é, a fraternidade universal.

A família é o primeiro altar onde se oferece o que se tem de melhor aos seus membros e Àquele que também se ofereceu a nós e por nós. Jesus apresentado no Templo, como fruto de uma família, nos ensina que sem doação, entrega abnegada, a família se desfigura e se torna apenas um aglomerado de egoístas que se exigem reciprocamente, digladiando-se a si mesmos, porque são incapazes de reconhecer que a vida de cada um é dom de Deus e não simplesmente uma ocasião para um utilitarismo desumano e destruidor de relações.

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 “O pai e a mãe estavam admirados com o que diziam a respeito dele”: toda vida humana tem um dinamismo que se renova permanentemente, é a energia vital que impulsiona o curso da existência, assim também a vida familiar. Admirar-se diante da vida é um sinal de que estamos mergulhando sempre mais na sua dimensão mais profunda. Quando as relações familiares se tornam uma rotina, onde não se vê o outro mais como uma fonte de inspiração e renovação, perde-se encanto da convivência. Não se tem mais nada a receber nem a oferecer. Sem dúvida, Maria e José passaram toda a vida familiar surpreendendo-se com o Filho, a grande novidade do Pai na realização do seu projeto de amor de dar a vida em plenitude às suas criaturas por excelência. O povo quando testemunhava as palavras e as atitudes de Jesus também se admirava e ficava encantado com tudo isso. Perder o encantamento da convivência familiar, isto é, quando não se tem mais nada de bom para dizer do outro, é transformar o lar em sepulcro, onde o silêncio incomoda o coração e o falar irrita as mentes.

O menino crescia e tornava-se forte, cheio de sabedoria; e a graça de Deus estava com ele”. Uma família que se fecha egoisticamente no seu pequeno mundo está prestes a atrofiar, a mediocrizar-se e desaparecer. Casais que se propõe à vida conjugal mas optam pela convivência entre dois egoístas que querem apenas aproveitar a vida, impedindo-a de florescer, e por isso consideram que os filhos tolhem a liberdade e limitam suas possibilidades de prazer e felicidade, traíram o projeto a eles confiados, pois usufruem dos prazeres imediatos da relação conjugal, mas não se doam generosamente na construção da humanidade, oferecendo-lhe seus frutos mais preciosos, mesmo que para isso seja preciso ir ao Templo oferecer sacrifícios.

Celebrar a Sagrada Família não é um suspiro alienante e ingênuo diante de uma sociedade que insiste em querer convencer que a família é uma instituição falida e superada. Mas, motivados pela fé, renovamos a certeza de que a vida é o dom mais precioso saído das mãos do Pai e colocado nas nossas para oferecê-lo com muita gratidão, e a melhor forma de fazê-lo é nos comprometermos com a família por Ele querida e pela qual o seu Filho deu a vida.

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Dom André Vital Félix da Silva, SCJ. Bispo da Diocese de Limoeiro do Norte – CE. Mestre em Teologia Bíblica pela Pontifícia Universidade Gregoriana.

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