BRE: Reflexão Comemoração dos Fiéis Defuntos – “Jo 6,37-40: A certeza da morte e a esperança de vida”

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Por: Dom André Vital Félix da Silva, SCJ

Texto também disponível em: dehonianosbre.org

Afirmava com muita propriedade Santo Agostinho: “As exéquias são mais úteis aos vivos do que aos mortos”. Engana-se, portanto, quem pensa que a comemoração dos fiéis defuntos é apenas um dia dedicado a orações em favor dos falecidos, o que para muita gente já não tem mais sentido; muitos até consideram essa longínqua Tradição, tanto cristã quanto anterior ao cristianismo, uma prática de fé ingênua misturada com superstição, motivada por um medo infantil de quem procura superar a dura realidade da finitude com uma esperança fundamentada em fantasias românticas de um coração angustiado.

A comemoração dos fiéis defuntos, além do sufrágio realizado pela Igreja como expressão da sua caridade para com os seus membros já falecidos, é também um momento privilegiado de nós os vivos tomarmos consciência de que não basta simplesmente ter a certeza da morte, mas é preciso renovar permanentemente a esperança na vida destinada à plenitude, pois esse desejo está inscrito indelevelmente no coração de todo ser humano, aceitando-o ou não.  O dia de hoje não tem finalidades masoquistas, pois não há necessidade de um dia específico para lembrarmos a verdade incontestável de que existe a morte, pois todos os dias estamos diante dela. Porém, diante desta realidade, é preciso saber qual é a razão de viver, de peregrinar na terra. Será possível acreditar que o nosso destino, no final da estrada, transcenderá o pequeno espaço do nosso túmulo? Por que será que a nossa existência, por mais breve que seja, traz em si um desejo infinito de eternizar-se?

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Acreditar na morte como palavra última e absoluta da nossa existência significa não ter razão para viver, pois nos restaria apenas a angustiante espera por ela, que apesar de tão conhecida e presente no nosso dia-a-dia, causa tanta surpresa, intriga e desespero ao coração humano.

A celebração do Mistério Pascal, também neste dia, abre-nos o horizonte da nossa existência, pois aponta para o nosso destino último, como nos afirma Aquele que morreu, mas está vivo: “E esta é a vontade daquele que me enviou: que eu não perca nenhum daqueles que ele me deu, mas os ressuscite no último dia”.

A fé na ressurreição não é uma resposta ingênua ao drama da morte, como se fosse um lenitivo para o doente terminal a fim de tornar suportáveis as suas última dores, mas é uma decisão corajosa de quem se reconhece amado por Deus, cuja prova máxima foi a entrega do seu Filho amado e único para que todos se tornassem seus filhos e filhas. Se o Pai é eterno, como poderiam ser privados de eternidade os seus filhos adotivos, aqueles dos quais Jesus afirmou: “Todos os que o Pai me confia virão a mim, e, quando vierem, não os afastarei”.

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Permanecer eternamente no túmulo seria a grande contestação da eternidade do Pai. Não é possível crer que Ele nos criou e, ao mesmo tempo, admitir a nossa eternidade no túmulo, separado dele. Se o Pai é amor eterno, como poderia se permitir amar os seus filhos de modo tão efêmero, numa brevidade de tempo tão insignificante diante da sua incomensurável eternidade.

É impossível negar o desejo do coração humano por uma vida que nunca termine. São inúmeras as tentativas de aumentar a longevidade; a medicina tem dado grandes passos nessa direção; muitos esforços têm sido realizados para que a vida se prolongue ao máximo, muitas vezes até transgredindo o direito de se ter uma morte digna, de reconhecer que a vida aqui na terra tem o seu momento final. A obsessão em prolongar a vida aqui na terra pode ser sinal de um vazio provocado pela falta de fé na vida destinada à eternidade.

Crer que Deus é amor e que nos ama verdadeiramente exige de nós acreditar na vida eterna, senão nos privaremos de ser amados por Ele, pois estaremos recusando a prova incontestável do seu eterno amor, isto é, permitir-nos a participação na sua vida. Deus não apenas inscreveu no coração humano o desejo de vida eterna, mas assumiu o ser humano no seu Filho, a fim de que esse desejo se realizasse: “Toda pessoa que vê o filho e nele crê tenha a vida eterna”. A fé em Jesus não é para reconhecer o óbvio, isto é, a certeza da morte, mas crer em Jesus é acolher o dom do amor do Pai: a vida eterna!

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Dom André Vital Félix da Silva, SCJ. Bispo da Diocese de Limoeiro do Norte – CE. Mestre em Teologia Bíblica pela Pontifícia Universidade Gregoriana.

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