BRE: Reflexão XXV Domingo Tempo Comum – “Mt 20,1-16a: A bondade de Deus: a recompensa antecipada”

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Por: Dom André Vital Félix da Silva, SCJ

Texto também disponível em: dehonianosbre.org

As parábolas de Jesus que encontramos nos evangelhos são mais do que simples comparações para facilitar a compreensão do seu ensinamento. Na verdade, ao contar uma parábola, o Mestre não pretende apenas que seus discípulos sejam instruídos numa determinada doutrina ou que tenham mais clareza do que ele está dizendo, mas que se comprometam ainda mais com a dinâmica do seguimento, isto é, que convertam a sua mentalidade e motivações, reafirmando a sua opção de aderir ao caminho de Jesus. Mais do que almejar uma recompensa final, calculada segundo aquilo que realizou, o discípulo deve crescer na consciência e convicção de que o permanente chamado de Deus para trabalhar na sua vinha já representa a fundamental motivação para aceitar o convite. Ser chamado ao trabalho da vinha, isto é, colaborar na implantação do Reino de Deus, já nos enche de alegria e, portanto, dever ser já uma recompensa antecipada.

Mesmo inspirando-se nos costumes da época, a parábola contada por Jesus apresenta um elemento fundamental que vai para além da lógica esperada, isto é, um patrão que não é apenas justo, mas que é livre, e por isso revela-se bom. Se é verdade que praticar a justiça é reconhecer o direito que o outro tem de receber e haver o que lhe pertence, a bondade, por sua vez, expressa a liberdade de um coração que ama e, por isso, é capaz de repartir o que é seu sem deixar-se condicionar por cálculos estreitos e mesquinhos, mesmo que esses obedeçam a uma lógica justa.

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A parábola nos desafia a superar a mentalidade da comparação horizontal, que cria muitas vezes competições desonestas ou exclusão injusta. Comprometer-se com a construção do Reino não é associar-se a um sindicato em vista da reivindicação de salários justos e igualitários segundo os critérios de um determinado grupo, mas assumir a lógica do Reino, é colocar-se a serviço da vida, dom gratuito de Deus, impossível de ser quantificado em vista de recompensas calculadas. Só quem é capaz de doar-se com generosidade é capaz de trabalhar com empenho no cuidado com a vida que, desde a madrugada até a noite do seu existir, é marcada pelo chamado permanente à plenitude.

Ao sair cincos vezes convidando trabalhadores para a vinha (madrugada, nove horas, meio dia, três horas, cinco da tarde), o patrão manifesta a sua generosidade em contratar o máximo de pessoas, independentemente se iriam trabalhar muito ou pouco naquele dia. Essa sua atitude perseverante indica que não importa tanto o momento no qual se começa o trabalho, talvez não tenha sido opção pessoal o não trabalhar: “Ninguém nos contratou”; mas o que conta mais é a prontidão em responder ao apelo.

Interessante notar que não são os “desempregados” que procuram o patrão pedindo-lhe emprego, mas é o próprio patrão que vai ao encontro deles na praça convidando-os para trabalhar na sua vinha. Essa atitude do patrão revela já antecipadamente a sua bondade, pois vai para além de uma resposta positiva diante da necessidade do outro, mas é ele que toma a iniciativa de oferecer o que o outro necessita.

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A visão mesquinha de justiça arranca a bondade do coração do ser humano, portanto, torna-o um ser calculista e, consequentemente, desumano e incapaz de colaborar na construção do Reino de Deus enquanto peregrina sobre a terra. A justiça horizontalista fundada na obsessão de direitos que se opõe a responsabilidades inerentes à vida e à convivência destrói a generosidade do coração humano tornando-o um empregado mal pago, frustrado no seu agir e, consequentemente, um juiz impiedoso para com o semelhante nos seus relacionamentos. Perdendo a consciência de ser chamado por Deus para o trabalho da vinha, o ser humano perde também a consciência de que o semelhante tem a sua mesma dignidade, pois são todos colaboradores e não concorrentes.

Na parábola, o valor fundamental e absoluto que estabelecia a justiça entre os diversos chamados a trabalhar na vinha não era a recompensa material (uma moeda de prata), mas o fato de todos eles terem sido chamados pelo mesmo patrão, que é bom e, por isso, é verdadeiramente justo.

A parábola alcança o seu ponto alto quando o patrão (Deus) declara a sua perfeita e absoluta liberdade ao chamar quem quer e quando quer para trabalhar na sua vinha (o reino). Consequentemente, ninguém pode ditar-lhe os critérios pelos quais será considerado justo, pois antes de tudo, é preciso fazer a experiência da sua bondade, que se manifesta no permanente chamado dirigido a todos indistintamente, para só assim poder reconhecer que Ele não é injusto só porque o seu desejo é salvar a todos.

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Dom André Vital Félix da Silva, SCJ. Bispo da Diocese de Limoeiro do Norte – CE. Mestre em Teologia Bíblica pela Pontifícia Universidade Gregoriana.

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Uma resposta para BRE: Reflexão XXV Domingo Tempo Comum – “Mt 20,1-16a: A bondade de Deus: a recompensa antecipada”

  1. Salesia de Medeiros Wanderley disse:

    Eu precisei estudar teologia com Dom André, quando Professor no Seminário Arquidiocesano da Paraíba, para compreender bem esta Palavra. Antes, minha visão, como ele mesmo diz, era uma visão mesquinha da justiça . Feliz de quem pode progredir. 🙏🏼

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