BRE: Reflexão XV Domingo Tempo Comum – “Mt 13,1-23: Semente sozinha não produz fruto”

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Por: Dom André Vital Félix da Silva, SCJ

Texto também disponível em: dehonianosbre.org

Hoje e nos próximos domingos faremos a meditação do capítulo 13 de Mateus: o terceiro discurso de Jesus, estruturado em 7 parábolas (o semeador, o joio, o grão de mostarda, o fermento, o tesouro escondido, a pérola preciosa e a rede jogada ao mar) que pretende evidenciar a maneira de como o Reino de Deus vai se implantando, mas também apresenta quais são os obstáculos que encontra.

Ao longo do caminho de Jesus, há quem se dispõe a acolhê-lo e, portanto, torna-se capaz de compreender os mistérios do Reino, mas há também quem não persevera fielmente na prática da Palavra, e prefere permanecer na superficialidade e no descompromisso e, por isso, torna-se sempre mais incapaz de compreender o ensinamento do Mestre.

A parábola deste domingo apresenta três grandes dificuldades para a implantação do Reino, isto é, a superficialidade de quem escuta a palavra, a oposição explícita para acolher o Reino e a inconstância diante das exigências da fé. Por outro lado, há quem opta por sair do anonimato da multidão e tornar-se discípulo de Jesus.

O longo trecho do evangelho pode ser dividido em três partes: a parábola em si (13,3-9), o questionamento dos discípulos (13,10-17), e a explicação da parábola de forma alegórica (13,18-25).

É muito comum se afirmar que Jesus falava em parábolas, linguagem simples inspirada no cotidiano da vida das pessoas, a fim de que o povo pudesse compreender com mais facilidade o seu ensinamento, porém a resposta de Jesus diante da pergunta dos discípulos aponta para outra direção: “É por isso que lhes falo em parábolas: porque olhando, eles não veem e, ouvindo, eles não escutam nem compreendem” Parece uma contradição um tanto escandalosa. Contudo, é preciso considerar o dinamismo da parábola para poder encontrar sentido nessas palavras de Jesus.

Jesus como verdadeiro mestre tem seus recursos didáticos, os quais não servem para impor conhecimentos, mas desafia os seus ouvintes a buscar a verdade. Todas as vezes que o ser humano está diante de algo incompreensível, grosso modo, pode reagir de duas maneiras: ou fechar-se na sua preguiça mental e afastar-se escravizando-se na sua ignorância; ou encarar o desafio e buscar formas e caminhos de compreender e, por isso, procura aproximar-se.

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Jesus não limitava o seu ensinamento a um grupo seleto, exclusivista. Porém, deixava claro que o seu seguidor não podia se perder na multidão, pois ser discípulo Seu é tomar decisões de estar com Ele, partilhar da sua vida, assumir a sua missão. O discipulado não garante uma poltrona num auditório para ouvir belas explicações de um guru, mas exige disposição para aprender do Mestre, seguindo passo a passo o seu caminho, lançando as sementes do Reino, assumindo inclusive o seu destino: a cruz.

Diante de multidões que buscavam ouvir os ensinamentos de Jesus, podemos identificar quatro categorias de pessoas, segundo as suas disposições. A primeira categoria representada nos que estão à beira do caminho: são aqueles que escutam a Palavra com certa indiferença: “ao lado do caminho” (grego: para ten hodon), isto é, a Palavra (semente: grego sperma), não ocupa o centro da vida, por conseguinte não é levada a sério, não penetra no fundo da alma, onde deveria germinar e dar frutos.

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A segunda categoria simbolizada no terreno pedregoso indica aqueles que se entusiasmam ao ouvir a Palavra, tornam-se escravos do seu subjetivismo sentimental, mas não aderem com objetividade ao seguimento, não conseguem enxergar que a Palavra anunciada exige comunhão de vida com Aquele que a anuncia, o Crucificado, e portanto é preciso enraizar-se Nele para suportar a perseguição por causa da opção pelo Reino. A terceira categoria reúne aqueles que apesar de ouvir a Palavra não estão dispostos a uma verdadeira conversão, a uma mudança de mentalidade (grego: metanoia), mas querem acomodar a Palavra às suas comodidades (preocupações mundanas), a ponto de tirar a força transformadora da Palavra, deformando-a segundo os seus interesses, tornando-a estéril (paradoxo: semente estéril).

Por fim, a quarta categoria: terra boa, quem ouve e compreende a Palavra. Aqui está o coração do ensinamento de Jesus: “Porque a vós foi dado o conhecimento dos mistérios do reino dos céus”. Vós aqui se refere aos discípulos. Portanto, quem não sai da multidão, não se coloca aos pés do Mestre, não poderá compreender jamais o que Ele ensina. Estar aos pés do Mestre não é uma postura estática, pois o Mestre não ensina apenas quando está sentado, mas no caminho, por isso a imagem do semeador que saiu a semear. Sem fazer o caminho de Jesus é impossível compreender as suas parábolas; quem vai apenas à beira do lago de vez em quando (o pouco que tem) para ouvi-Lo, sairá de lá mais confuso ainda, pois: “à pessoa que não tem será tirado o pouco que tem”. Mas quem o segue, torna-se terreno bem preparado e fértil onde a semente germina e cresce: “à pessoa que tem será dado ainda mais”. Não importa a quantidade dos frutos, mas que frutifique.

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Dom André Vital Félix da Silva, SCJ. Nomeado Bispo da Diocese de Limoeiro do Norte-CE em 10 de maio de 2017. Mestre em Teologia Bíblica pela Pontifícia Universidade Gregoriana. 

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