Eis o Coração que tanto amou o Mundo!

JESUS NA CRUZ - arte PNG

Por: Pe. Francisco Izaú Cavalcanti, SCJ

Jamais se apagou de minha memória uma reflexão de meu mestre de noviços ao falar da espiritualidade do Coração de Jesus. Ele afirmou, naquela ocasião, que a verdadeira imagem do Sagrado Coração de Jesus é o crucificado! Estas palavras me marcaram e continuam marcando, pois o transpassado é uma imagem muito forte. Na primeira vez que as ouvi tive um certo espanto, acostumado com a imagem de Jesus fora da cruz que aponta para o seu coração (imagem muito mais branda e agradável de se contemplar). Depois de certo tempo percebi que o mestre tinha razão.

Foi justamente na contemplação do crucificado que nasceu a intuição de nosso fundador, Pe. Dehon, para corresponder ao amor de Deus (Jo 19, 34).  Aquele coração transpassado na cruz evoca muito mais forte o amor ferido.  São Boaventura afirma: “a ferida do corpo mostra a ferida espiritual. Contemplamos através da ferida visível a ferida invisível do amor”. Sim, o seu Coração está aberto por nós e aos nossos olhos; e deste modo está aberto o Coração do próprio Deus (Bento XVI).

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Falar do Coração de Jesus é ir ao profundo de Deus e contemplar um amor infinito. Amor oferecido da parte de Deus e amor rejeitado por parte do homem. Rejeitado porque incompreendido, já que o verdadeiro amor é vivido na dor. Nos dias de hoje temos a mentalidade de evitar a dor e o sacrifício; quereremos somente o bem-estar e o conforto material. Tal atitude é a mesma repulsa da cruz que Pedro teve (Mt 16, 22). Tal mentalidade está cada vez mais nos afastando do Reino de Deus. “Ela julgava poder transformar pedras em pão, mas gerou pedras em vez de pão” (RATZINGER, 2007, p. 45). Faz-se necessário retomar a contemplação do mistério de sofrimento. Infelizmente hoje se faz uma oposição ao crucificado até em nossas liturgias, com a desculpa que tal imagem reforçaria um quietismo piedoso. Talvez quem use este argumento está escondendo uma indisposição em seguir Cristo e não suporta ver em nosso povo mais fiel a capacidade do seguimento. Adorar o crucificado é descobrir ali um gesto de entrega incondicional e não somente refletir sobre as ofensas causadas ao coração de Jesus. Diante do coração transpassado não se deve eclodir sentimentos de pesar e tristeza.

O coração transpassado fala de um evento de salvação e não da celebração de uma ideia. Uma verdadeira espiritualidade concretiza as disposições interiores e nos leva a um empenho de toda a personalidade. Espiritualidade não consiste em uma soma de práticas minuciosas. É impossível contemplar o transpassado e ficar indiferente. Aquele amor nos entusiasma a acolher e viver as consequências de amar! Leva-nos a um despojamento interior, abrindo-nos ao próximo. A entrega de Cristo na cruz é obediência por amor, porque é a consequência de seu jeito de viver totalmente imerso e movido pelo amar. Jesus acolhe a cruz e se deixa transpassar nela por causa de seu amor livre e consciente que decide não voltar atrás na realização do projeto do Pai.

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Bem afirma Bento XVI:

É sobre este madeiro que Jesus nos revela a sua soberana majestade, nos revela que Ele é exaltado na glória. Sim, “Vinde, adoremo-Lo!”. No meio de nós, encontra-se  Aquele que nos amou até ao ponto de dar a sua vida por nós; Aquele que convida todo o ser humano a aproximar-se d’Ele com confiança. Deus desarma nosso egoísmo com a lógica do amor. Do mesmo modo que pela cruz Jesus retomou a caminhada do Homem Feliz, Livre, que o pecado havia roubado ao capturá-lo, pela cruz, pelo não às facilidades escravizantes, o cristão, com a graça de Deus, irá realizar-se. Toda a nossa vida deve passar pela cruz, para que seja autêntica, plena, realizadora, feliz!  Ele não se rende perante a ingratidão, e nem sequer diante da rejeição do povo que Ele escolheu para si; pelo contrário, com misericórdia infinita, envia ao mundo o seu Filho, o Unigénito, para que assuma sobre si o destino do amor aniquilado a fim de que, derrotando o poder do mal e da morte, possa restituir dignidade de filhos aos seres humanos, que o pecado tornou escravos. Tudo isto a caro preço: o Filho Unigénito do Pai imola-se na cruz: ‘Tendo amado os seus que estavam no mundo, amou-os até ao fim’ (cf. Jo 13, 1). (Festa do Coração de Jesus BENTO XVI , 19 de Junho de 2009).

Contemplar o coração de Jesus leva-nos à liberdade de nós mesmos e nos capacita para servirmos ao próximo. Também ajuda-nos a amar mais qualitativamente ao Pai buscando retribuir na medida do amor que Ele tem por nós, pois “Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna” (Jo 3, 16).

Concluo com uma bela oração de São Nicolau de Flüe:

“Meu Senhor e meu Deus, arrancai de mim mesmo tudo o que me impede de ir a Vós. Meu Senhor e meu Deus, dai-me tudo aquilo que me conduz a Vós. Meu Senhor e meu Deus, tirai-me de mim mesmo e entregai-me todo a Vós.” [CIC 226].

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Pe. Francisco Izaú Cavalcante, scj. Religioso da Congregação dos Sacerdotes do Sagrado Coração de Jesus – Dehonianos. Mestre em Teologia Dogmática Pela Pontifícia Universidade Gregoriana de Roma. Professor de dogmática nos Seminários de Caruaru – PE e Campina Grande – PB. Vigário cooperador da Paróquia de São Pio X em Camaragibe – PE.

 

 

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