“Deixai-vos reconciliar com Deus” (2Cor 5,20).

quaresma cruz

Por: Pe. Gimesson Eduardo da Silva, scj

Vivendo o Tempo da Quaresma, reconhecemos que o nosso caminho de preparação para a Páscoa do Crucificado-Ressuscitado nos convida à reconciliação.

Renovando a consciência da nossa dignidade batismal e celebrando a graça de sermos filhos e filhas de Deus no Filho, somos conduzidos pelo Espírito a embrenhar-nos no deserto da vida, como o fez Jesus depois do seu batismo no Jordão e antes de iniciar a sua vida pública (cf. Mt 4,1-11; Mc 1,12-13; Lc 4,1-13), a fim de nos confrontarmos com os limites e tropeços que desintegram a vida e des-conciliamo coração.

Batendo no peito suplicando que Deus tenha piedade de nós porque pecamos (cf. Sl 50), inclinados sob o peso desconfortável das cinzas da penitência, rasgamos o nosso interior mais íntimo, e não apenas as vestes vistosas do orgulho ferido ou do escrúpulo prepotente, a fim de voltarmos para Deus de todo o coração (cf. Jl 2,12-18). Despedaçados e dispersos por escolhas erradas, passos tortos no caminho, visões mesquinhas diante das coisas e atos de amargo desamor, queremos recuperar a nossa integridade mais profunda e descobrir o segredo da reconciliação que unifica o ser e fazer de quem sabe viver bem e para o Bem. A Quaresma nos ajuda a colar o cacos da vida despedaçada pela teimosia do pecado, que insiste em nos aprisionar no redemoinho do nosso fechamento ao amor de Deus, verdadeiro eixo integrador de toda e qualquer vida consistente, significativa e feliz. Ouvintes da Palavra que liberta e penitentes na oração traduzida em jejum e caridade, desejamos re-conciliar o que des-conciliamos. Para isto, precisamos deixar-nos reconciliar através da conversão que transforma, não como simples consequência do esforço humano, mas como sincera disponibilidade à ação da graça divina comunicada no mistério do Crucificado-Ressuscitado.

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O deixar-se significa disponibilidade ativa à aventura espiritual de integração interior. Desamarrando-nos de tudo aquilo que nos dispersa na ilusão das falsas conciliações, experimentamos a maturidade da liberdade para a qual Cristo nos libertou (cf. Gl 5,1ss). Dessa forma, recolhidos em oração humilde, disciplinados pelo jejum libertador e animados pela esmola solidária, rejeitamos as propostas tentadoras de conciliação com projetos de vida pautados pela ânsia de poder, alicerçados na fantasia do ter e alucinados pelas fábulas do prazer. Poder, ter e prazer, realidades da nossa condição humana e marcas da nossa existência concreta, se não integradas a partir de um sentido profundo de amor, podem fazer de nós homens e mulheres dispersos e carentes de um horizonte infinito que dê sentido à vida finita e lhe carregue de energia propulsora rumo à meta que ultrapassa os limites das nossas fragilidades, não como alienação, mas como processo inerente à capacidade humana e espiritual de transcendência.

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Renovando nossa fé no Deus de misericórdia, rezamos para que Ele nos faça pensar sempre o que é reto e realizá-lo com solicitude, pois só podemos existir nele e, por isso, precisamos viver segundo sua vontade (cf. Oração Coleta da Quinta-feira da I Semana da Quaresma). É neste espírito de conversão que caminhamos rumo à Páscoa, sentindo o peso dos nossos pecados e a dureza do nosso coração. Sendo assim, caminhamos para uma meta, pois não somos caminhantes sem rumo, e cremos que alcançaremos Aquele que já nos alcançou e receberemos o prêmio da vocação do alto, que vem de Deus em Cristo Jesus (Fl 3,14). Este prêmio, encarnado em nosso itinerário quaresmal, concretiza-se numa existência totalmente orientada pela vida de Cristo. Passamos a viver por Ele, com Ele e nEle, ao ponto de dizermos que é Ele que vive em nós (cf. Gl 2,20). Assumimos o mesmo sentimento de Cristo Jesus (Fl 2,5), passando a iluminar tudo o que pensamos, fazemos e somos com o brilho de vida e imortalidade que resplandece por meio do Evangelho (cf. 2Tm 1,10). É neste sentido que, deixando-nos reconciliar com Deus, unidos à oblação pascal de Cristo, fazemos do nosso coração convertido um sacrifício agradável ao Pai e um dom de amor aos irmãos. Recuperamos a nossa harmonia interior que tem sua consistência em Deus para podermos, assim, vivermos em integração e conciliação com as demais pessoas e com toda a criação.

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Envolvidos pela misericórdia do Pai comunicada em seu Filho Jesus Cristo, abraçamos a conversão como um reviver da graça batismal que nos configurou no Espírito. Por isso, o dom da reconciliação neste Tempo de Quaresma nos amadurece na fé pela qual somos exortados a não receber a graça de Deus em vão, pois agora é o tempo favorável por excelência, agora é o dia da salvação (cf. 2Cor 6,1-2).

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Pe. Gimesson Eduardo da Silva, scj. Mestre em Teologia Dogmática pela Pontifícia Universidade Gregoriana. Reitor do Seminário Propedêutico da Congregação dos Sacerdotes do Sagrado Coração de Jesus – Província Brasil Recife. Chanceler da Arquidiocese da Paraíba – PB.

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