BRE: Reflexão V Domingo da Quaresma – “Jo 11,1-45: Incredulidade: a doença mortal”

duvida1

Por: Pe. André Vital Félix da Silva, SCJ

Texto também disponível em: dehonianosbre.org

A liturgia desse V Domingo nos apresenta a última catequese sobre o batismo: a ressurreição de Lázaro. No mistério da morte daquele que crê, o anúncio da vitória da vida que não morre. Assim como na cura do cego de nascença (IV Domingo) apareceram os verdadeiros cegos, aqui se revelam quem são os verdadeiros doentes e que arriscam morrer verdadeiramente. A doença de Lázaro serve para: “A glória de Deus, para que o Filho de Deus seja glorificado por ela”, porque é ocasião para Jesus revelar que há uma doença mais grave na vida do ser humano do que os males físicos: a incredulidade; pois esta sim pode levar à morte eterna, e só crendo Nele o ser humano poderá ser curado dessa enfermidade letal. A incredulidade não é apenas a não crença numa divindade ou a não aceitação de um credo religioso, mas representa algo mais mortal para o ser humano, é a recusa do amor de Deus, “que tanto amou o mundo que entregou o seu Filho único, para que todo o que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna” (Jo 3,16). A rejeição ao amor de Deus é uma das marcas do nosso tempo. Na base de todo desamor (ódio, violência, injustiças etc.) está a ausência da experiência de ser amado. Lázaro é o símbolo do homem que, apesar de sua doença, é amado por Deus. Quando as irmãs mandam dizer a Jesus que ele estava doente não o identificam com o seu nome (Lázaro), mas com uma expressão que indica a condição de todo ser humano: “Aquele que amas está doente”.

consola2

Como é difícil para o mundo de hoje reconhecer essas duas grandes verdades: por um lado, a doença da incredulidade, por outro, o amor de Deus que é capaz de curá-lo desse mal, e garantir não apenas a saúde do corpo para alguns anos aqui na terra, mas a vida que não morre, cujo ápice é a ressurreição, a plenitude da vida. Da parte do ser humano basta crer nesse amor, o mais Deus já fez: “Não há maior prova de amor do que dá a vida” (Jo 15,13). A necessidade urgente de contemplar o crucificado não é impulso masoquista de uma religião alienante, mas a condição imprescindível para fazer a experiência de um amor que não se acovarda para provar que é verdadeiro.

Até chegar ao túmulo de Lázaro, o morto que não morreu, Jesus vai encontrando muitos outros doentes (incrédulos) que estão morrendo, cujos sintomas vão se evidenciando nos vários personagens da narração. O primeiro sintoma manifesta-se nos discípulos: “Mestre, ainda há pouco os judeus queriam apedrejar-te, e agora vais outra vez para lá? ”, é o medo-covarde que toma o coração dos discípulos. Choca reconhecer que os primeiros da lista dos doentes são os próprios discípulos. O medo da morte para quem não tem fé já é a morte antecipada. Infelizmente hoje, também, há muitos que se dizem cristãos, mas na hora de seguir os passos do Mestre, rejeitado e condenado à morte por causa de sua fidelidade à verdade, acovardam-se e decidem por outra estrada. Se a morte nos lança uma penumbra de incertezas, a luz de Cristo rompe a escuridão e nos garante que a morte física é apenas uma passagem como a noite é vencida pela luz do amanhecer: “Se alguém caminha de dia, não tropeça, porque vê a luz deste mundo”.

A palavra de Jesus inicia, nos discípulos acovardados e medrosos, o processo de cura; não é por acaso que aquele cuja incredulidade foi definitivamente sanada após o encontro com o Senhor ressuscitado tome a palavra e dê o primeiro passo da fé: “Tomé disse então aos outros discípulos: ‘Vamos também nós para morrermos com ele!”.

tome3

Marta e Maria, mesmo demonstrando certa fé em Jesus, passam pelo momento da dúvida: “Se tivesses estado aqui, meu irmão não teria morrido”. A fé questiona, mas não deixa dúvidas, pois indica o caminho. A dúvida (do latim dubitare: oscilar entre duas partes; do grego distadzo: ficar em dois caminhos) paralisa, por isso Maria está prostrada (“ficou sentada em casa”), não consegue caminhar até Jesus porque tem dúvidas. Contudo, a sua irmã Marta, tendo sido desafiada por Jesus a vencer a dúvida pela fé: “Crês isto? Sim, Senhor, eu creio”, vai chamá-la a fim de que se levante (grego egeiro: levantar, mesmo verbo para ressuscitar) e tome a estrada em direção ao Mestre, abandone o seu sepulcro e tenha vida.

Outro sintoma da incredulidade é a falta de esperança: os judeus que, apesar de terem ido à casa de Marta e Maria para consolá-las, não foram capazes de infundir-lhes esperança, não conseguiram enxugar as lágrimas das enlutadas, mas pelo contrário choravam com elas aumentando o clima de desespero. Diante de tantos sinais de incredulidade, a reação de Jesus: “Estremeceu interiormente… E Jesus chorou”. Não é coerente pensar que o choro de Jesus se deu pelo fato de estar inerte diante do túmulo de um amigo amado agora defunto, pois ele sabia que iria ressuscitá-lo; a certeza da ressurreição já era suficiente para vencer a tristeza da morte, por isso Jesus não precisava chorar. Portanto, a indignação de Jesus (comoveu-se interiormente: grego enebprimésato en pneumati: encolerizar-se em espírito) é mais do que uma tristeza emocional, é um repúdio diante da incredulidade assim como Jesus chorou ao ver Jerusalém, que não reconheceu o dia da sua visita (Lc 19,41s). Portanto, é a incredulidade, a recusa de Deus e do seu amor que provoca o choro de Jesus.

choro4

Contudo, para esta doença há esperança de cura, pois o Pai ouve sempre o Filho, e este é o desejo do Filho: “que todos tenham vida e vida em abundância(Jo 10,10). Na oração de Jesus à porta do sepulcro se consolida toda a nossa esperança de cura: “Pai, dou-te graças”. Jesus não pede para que algo aconteça, abrindo espaço para dúvidas, mas agradece por aquilo que vai acontecer, por isso utiliza o verbo eucharisto (daí Eucaristia: memorial da paixão, morte e ressurreição do Senhor). Assim chegamos ao ponto mais alto de nossa preparação quaresmal: o anúncio da morte e ressurreição de Cristo, o grande sinal dado por Deus de que nos ama, a grande ajuda (Lázaro significa “Deus ajuda”) para vencermos a incredulidade e termos vida plena. Todo batizado foi curado da doença da incredulidade, mas para que não adoeça precisa vencer a tentação da incredulidade. Celebrar a Eucaristia, alimento dos batizados, é dar a resposta: “Sim, eu creio que tu és o Cristo, o Filho de Deus que devia vir ao mundo”, cuja missão é testemunhar que Deus nos ama. E, por isso, a permanente pergunta do Senhor a nós: “Crês isso!?”.

eucaristia5

Padre Andre

Pe. André Vital Félix da Silva, SCJ. Mestre em Teologia Bíblica pela Pontifícia Universidade Gregoriana. Professor nos Seminários de Campina Grande-PB, Caruaru-PE e João Pessoa-PB. Membro da Comissão Teológica Dehoniana Continental – América Latina (CTDC-AL).

Esse post foi publicado em Reflexão dominical. Bookmark o link permanente.

3 respostas para BRE: Reflexão V Domingo da Quaresma – “Jo 11,1-45: Incredulidade: a doença mortal”

  1. Aines Lino Bastos disse:

    Sinto-me privilegiada de está entre aqueles agraciados com tão belas reflexões. Obrigada e conte com minhas preces.

  2. itamar disse:

    Quantas vezes em nossa vida, Jesus precisou remover a pedra de nossos túmulos. Túmulos que nós entramos e que não conseguimos sair. São momentos que nos sentimos sozinhos, deprimidos, desesperançados. Mas, quando tudo se torna impossível ao olhos humanos, Deus nos mostra que para Ele não importa as circunstância, Ele fará o impossível acontecer.
    Basta acreditarmos.

  3. Lindalva G. Assis disse:

    Neste tempo quaresmal suas palavras que orientam a nossa caminhada aparecem como iluminação para melhor compreender as pedras que aparecem no caminho e não podemos
    retira-las sozinha.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s