BRE: Reflexão IV Domingo da Quaresma – “Jo 9,1-41: Batismo: unge e lava os olhos para ver a verdade”

cego1

Por: Pe. André Vital Félix da Silva, SCJ

Texto também disponível em: dehonianosbre.org

Neste tempo especial de preparação dos catecúmenos para o Batismo e da renovação das promessas dos já batizados, a liturgia deste domingo nos apresenta, no encontro de Jesus com o cego de nascença, mais uma catequese batismal. A narração da cura do cego de nascença, com o simbolismo próprio do IV evangelho, tem como objetivo a revelação da pessoa de Jesus no seu mistério de Deus encarnado, luz que ilumina todo homem vindo ao mundo (Jo 1,9), mas ao mesmo tempo mostra que todo aquele que é iluminado por Ele torna-se testemunha da luz verdadeira. No cego de nascença curado temos uma prefiguração de todo batizado; no Cristianismo primitivo tanto batismo quanto a vida cristã eram chamados de iluminação: “Lembrai-vos, contudo, dos vossos primórdios: apenas havíeis sido iluminados, suportastes um combate doloroso” (Hb 10,32, do grego photismós: iluminação). São Paulo define os batizados como “filhos da luz” (Ef 5,7: grego tekna photos).

luz2

A luz é símbolo da verdade, a única capaz de garantir a vida, pois liberta o ser humano de toda escravidão (Jo 8,32). Contudo, para o cristão, a verdade não se esgota numa simples correspondência entre uma ideia representada na mente e algo externo perceptível na realidade. A verdade para o batizado é uma pessoa: Jesus, “o Verbo de Deus que se fez carne e habitou entre nós” (Jo 1,14). É nele que o ser humano descobre quem é (GS 22); o encontro com o Senhor inunda de luz a sua vida para que conheça a verdade sobre si, sobre o mundo, sobre Deus. Porém, este caminho não se faz por pura iniciativa humana, mas na base de tudo está a graça de Deus que, apesar do nosso pecado, se manifesta. O batismo é justamente a porta de entrada que nos leva ao conhecimento da verdade. Encontrando-se com a verdade, o batizado é desafiado a reconhecer e discernir o que é verdadeiro do que é mentiroso.

Numa sociedade que jaz sob a ditadura do relativismo, como denunciou Bento XVI, a única verdade permitida é que a verdade não existe, ou no máximo depende do subjetivismo de cada um. Os próprios defensores dessa mentira se contradizem crendo que essa sua mentira é a verdade absoluta, e não escapam da necessidade de uma verdade, ainda que esta seja mentira.

O cego que começa a enxergar representa o ser humano que reconhece a verdade e, portanto, não se deixa aprisionar pela mentira usurpadora. O evangelho nos apresenta, de forma didática, este caminho rumo à verdade, através de dois gestos simbólicos: ungir e lavar os olhos.

“Jesus cuspiu no chão, fez lama com a saliva e colocou-a sobre os olhos do cego”. A expressão grega traduzida por “colocar sobre” (os olhos) no grego é uma palavra só (epechrisen: epi: sobre, e o verbo chrio, de onde vem Cristo, ungido, crisma, unção. No Antigo Testamento é um verbo usado para a unção de reis 1Sm 10,1; sacerdotes Ex 28,4; profetas 1Rs 19,16) e pode ser muito bem compreendida como “ungir”. Portanto, o gesto de Jesus adquire um sentido mais profundo: ungindo o cego com a argila da terra e a sua saliva, recorda o ato primordial de Deus ao criar o ser humano (Gn 2,7). Esta é a primeira experiência de encontro com a verdade: o homem que toma consciência do que ele é, isto é, uma criatura de Deus, intimamente ligado à terra, mas que recebeu um sopro divino e, por isso, não pode negar a sua natureza transcendente. Reduzir o homem a um animal terráqueo é torná-lo cego. Sem dúvida, esta é uma das verdades mais contestadas por ideologias materialistas, que aprisionam o homem ao mundo das satisfações materiais, impedindo-lhe de conhecer a verdade de que ele é mais do que o seu corpo e suas necessidades.

siloe3

“Vai lavar-te na piscina de Siloé”: recuperando a verdade fundamental da sua existência, o cego precisa dar um outro passo: obedecer à Palavra de Jesus que o envia à piscina. Lavar-se significa mergulhar em Siloé (Shiloah: hebraico, enviado). O próprio Jesus, um pouco antes, afirmara ser ele o enviado do Pai: “É necessário realizar as obras daquele que me enviou”. Simbolicamente o homem que foi ungido, que recebeu gratuitamente o dom de Deus, agora precisa mergulhar em Cristo, tornar-se um discípulo dele para continuar a conhecer a verdade que liberta. Paralelamente, todas as outras pessoas se opõem à verdade incontestável da cura do que fora cego. Mesmo enxergando a verdade, não querem reconhecê-la (vizinhos, pais, fariseus). Pois acolher a verdade exige ter os olhos ungidos e lavados pelo Cristo. Preferem fechar os olhos para não se comprometer com a verdade, pois essa tem um preço, que se paga inclusive com a vida. Só quem faz a experiência de ser libertado por ela é capaz de dar a vida por ela, pois sabe que não a perderá para sempre.

Os vizinhos, os pais e os fariseus negaram a verdade porque caíram na tentação de separar a verdade da cura com a verdade de quem a realizou.

Quando o ser humano provoca um divórcio entre a verdade e a realidade, ele cria a sua própria verdade e, consequentemente, aprisiona-se às suas mentiras. As grandes mentiras proclamadas verdades no nosso mundo hoje são fruto do divórcio entre cultura e natureza, pois não se pode crer que uma cultura é verdadeira se esta destrói a natureza; no âmbito da religião, quando se divorcia a ação pastoral do depósito da fé, a religião deixa de ser profética e vira uma ONG ou mesmo um clube de amigos. Separando o amor da abnegação, tudo vira sentimentalismo escravizador. Uma autoridade que não é serviço, depõe contra a vida e a faz refém de privilégios mesquinhos. Quando se estabelece um hiato entre fé e razão, as duas asas de elevação do espírito humano rumo à verdade, entre espiritualidade e consciência moral, forja-se uma ciência servidora de interesses egoístas e mercadológicos e uma religião que não passa de sedativo de angústias, sem produzir atitudes coerentes e verdadeiras transformações.

Se o batismo nos faz mergulhar no mistério de Cristo, morto e ressuscitado, ser batizado é ser iluminado por Ele, a luz da verdade, e tornar-se sua testemunha no mundo que tem medo da verdade, mas que necessita urgentemente dela, caso contrário não encontrará a liberdade verdadeira nem vida em plenitude.

cegos4

Padre Andre

Pe. André Vital Félix da Silva, SCJ. Mestre em Teologia Bíblica pela Pontifícia Universidade Gregoriana. Professor nos Seminários de Campina Grande-PB, Caruaru-PE e João Pessoa-PB. Membro da Comissão Teológica Dehoniana Continental – América Latina (CTDC-AL).

Esse post foi publicado em Reflexão dominical. Bookmark o link permanente.

Uma resposta para BRE: Reflexão IV Domingo da Quaresma – “Jo 9,1-41: Batismo: unge e lava os olhos para ver a verdade”

  1. Maria Nazareth de Carvalho disse:

    Temos que dar graças a Deus e rezar pelo nosso Bispo de Roma, o Papa Francisco , que tem um zelo especial pelo rebanho que lhe foi confiado na missão de conduzi na fé , no amor e no conhecimento , o Evangelho , de Jesus , para a glória de Deus e a santificação de toda Igreja .
    Que o Espírito santo nos ilumine e Nossa Senhora, nos preserve do pecado.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s