Ensinar os que não sabem e aconselhar os que necessitam

Carta do Superior Geral da Congregação dos Sacerdotes do Sagrado Coração de Jesus por ocasião da festa do nascimento do Pe. João Leão Dehon (fundador da Congregação SCJ).

Aos confrades espalhados pelo mundo e a todos que formam a Família Dehoniana.

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A celebração da vida, de toda a vida, é sempre uma ocasião para concentrar o olhar e o coração naquilo que é importante. Cada vida tem uma história e uma escola. Aprendemos com cada uma. Voltar o nosso olhar e o nosso coração para aqueles que fazem parte da nossa vida quotidiana e também para aqueles que nos precederam, é um exercício saudável e necessário para descobrirmos parte de um corpo que se desenvolve, que se movimenta, que tem um passado, um presente e um futuro. Ao mesmo tempo, é também um exercício que requer humildade e atenção, pois significa aceitar que precisamos de inspiração e de encorajamento, de ensino e de conselho, para nos mantermos vivos e no caminho perante os desafios e as incertezas que ocorrem em cada tempo e em cada lugar.

A celebração do aniversário do nascimento do Padre João Leão Dehon é um momento oportuno para continuarmos a fixar o olhar, o coração e o caminho ao serviço do Evangelho. Damos graças a Deus pelo dom da sua vida oferecida e partilhada na procura inquieta da união com o Senhor. O seu testemunho e o seu trabalho, enraizado na contemplação do amor do Pai e comprometido com a Igreja e a sociedade do seu tempo, são áreas abertas de aprendizagem sólida e de conselho afetuoso. Tanto assim é, que até podemos dizer que o Padre Dehon continua entre nós as obras de misericórdia espirituais para ensinar aqueles que não sabem e aconselhar aqueles que necessitam.

A riqueza de todo o seu ser não foi uma conquista improvisada, mas o resultado da ação boa e gratuito de Deus, do contributo de muitas pessoas, da sua própria apetência por aprender e da sua sincera vontade em deixar-se acompanhar. Se hoje nós reconhecemos nele um modelo de vida cristã é porque, com a sua fé e a sua dedicação, viveu uma efetiva formação permanente, aprendendo com tudo e de todos1. Em nada se ostentou por vaidade. Utilizou os seus talentos de modo eficaz para compreender e servir o mundo em que viveu, cheio de possibilidades e de contradições.

Dehon aceitou os desafios de sua vocação e da sua época. No campo da educação encontrou a forma adequada de se envolver com a Igreja na sociedade de então. Fê-lo de modo amplo e criativo, com uma série de iniciativas para jovens, trabalhadores, fiéis, clero e empresários; organizou círculos de estudo, o Patronato São José, o Colégio São João; espalhou critérios e ideias com as suas conferências, pregações e escritos. Certamente que ensinou muito com o seu intenso trabalho e os seus preciosos conselhos. Se isto se tornou possível, foi porque ele próprio cultivou primeiramente um bom percurso formativo. Não se pode dar aquilo que não se possui.

O convite que fazemos é o de considerar alguns aspectos vividos pelo Padre Dehon com tal paixão e fidelidade que lhe permitiram ter palavras e ações que se tornaram fonte de vida e de esperança para os outros… O mundo sapiencial bíblico, tão querido ao nosso Fundador, oferece-nos uma boa orientação: Li e reli o livro de Ben Sirá. Fiquei maravilhado. Trata-se de um livro que é muitas vezes negligenciado. Devia ser publicada uma edição popular; uma tradução livre, uma reformulação e adaptação aos nossos costumes. Nesta leitura que tanto o entusiasmou, reconhecemos os pilares que marcaram a vida do Padre Dehon. Concentramo-nos em três aspectos que enunciam um itinerário breve e conciso:

“Comunica assiduamente com um homem piedoso, que reconheceres como cumpridor dos mandamentos, cuja alma seja semelhante à tua, e que, se tropeçares, compartilhará da tua dor. Atende ao conselho do teu coração, porque ninguém te é fiel como ele. Com efeito, a alma de um homem adverte-o melhor que sete sentinelas colocadas de atalaia. Mas em todas as coisas pede ao Altíssimo que dirija os teus passos na verdade” (Sir 37,12-15).

São indicações claras. Vamos examiná-las brevemente, ilustrando-as com algumas reflexões do Fundador e com o convite a que as façamos ecoar no nosso caminho pessoal e comunitário.

1. Comunica assiduamente com um homem piedoso (Sir 37,12)

Primeiro aspecto: sair de si mesmo. Precisamos dos outros. Quando o Padre Dehon recorda pessoas significativas na sua história, são muitos os nomes que refere. Fá-lo com gratidão. A título de exemplo, basta mencionar alguns: a mãe, Estefânia Vandelet: A minha boa mãe ajudou-me muito (…). Os seus piedosos conselhos diários tocavam-me; Com ela vive até o fim dos seus dias uma cumplicidade cativante. Mais tarde, o seu Diretor Espiritual, o Pe. Melchior Freyd, do Seminário francês de Santa Clara, em Roma: Ainda sinto os seus conselhos e repreensões. Foi para mim um canal de tantas graças!. Recorda as pessoas que serve no ministério em Saint-Quentin, as Servas do Coração de Jesus, com a sua fundadora, a Madre Maria Ulrich: Ela edificou-me com o seu ardente zelo pelo bem. Do mundo económico e político recorda o industrial Léon Harmel, apóstolo da Doutrina Social e dos congressos operários, nos quais Dehon participa com muito proveito: Eu não fui nem relator, nem orador. Falei apenas nas comissões para informar-me e instruir-me. Nos anos da fundação da Congregação, e também mais tarde, recorda o seu Bispo D. Thibaudier. (…) Aquele que tinha a autoridade para me fazer ver a vontade de Deus. 

Desde tenra idade até ao fim dos seus dias o Padre Dehon mostrou propensão para aprender com os outros, também através da leitura e do estudo, aberto a muitas áreas da Teologia e a temas das realidades humanas. Deixou-se guiar nos seus momentos de dificuldade, consultou os outros nas adversidades e assumiu as próprias responsabilidades nas situações mais complexas:

Quando tivemos as graças extraordinárias, de 1878 a 1883, senti-me afeiçoado, estava satisfeito, tinha-as pedido e havia em mim uma amálgama de sentimentos. Eu não sabia que era necessário ter muita ponderação e suspeição. A Madre Superiora era muito inclinada a aceitar tudo, e com a permissão da Providência, o piedoso padre Modesto, que nos orientava, nunca tinha sido introduzido nas regras da prudência relativas a este tipo de acontecimentos. D. Thibaudier queria refrear-nos, e nós pensámos que ele estivesse equivocado. Houve erros que era necessário expiar. A Igreja interveio. A prova foi uma graça.

Apesar das contradições que o Padre Dehon sofreu, não caiu no desânimo nem na soberba. Mantendo as devidas proporções, podemos dizer que a voz do Papa Francisco sintetiza etapas específicas vividas pelo Padre Dehon e por muitos que, ontem e hoje, aprendem com proveito, acolhendo as necessárias ajudas e orientações daqueles que não deixam de ser bons companheiros de caminho, nas quedas e nos desaires:

Errar, errar, é coisa que acontece! Até que um dia chega uma carta da Congregação para a Doutrina (da Fé) a afirmar que tinha dito isto e aquilo… Não vos preocupeis. Expliquem o que deve ser explicado e sigam em frente. 

2. Atende ao conselho do teu coração (Sir 37,13)

Segundo aspecto: olhar para dentro de si próprio. No texto do Livro de Ben Sirá que nos guia, o coração – a realidade mais íntima e original da pessoa – permanece no centro, entre o homem piedoso e a sequente referência ao Altíssimo. E é precisamente aí, entre os dois, que deve permanecer, habituando-se a crescer e a conviver com eles. Sem eles, o coração isola-se e perde-se; a cordialidade não acontece. Dehon preservou-a e aprendeu a escutar o coração desde a juventude: A graça atuava fortemente no meu coração. Foi nesse espaço misteriosa e interior que entrou em sintonia com a sua verdadeira vocação: Nosso Senhor pede-me cada vez mais confiança e abandono. É aí que alimenta o desejo de responder ao chamamento que o apaixona: Tenho fome de vida interior, de paz, de união com Nosso Senhor; mas nem sempre foi claro qual o caminho a seguir: Antes a vontade de Deus parecia manifestar-se milagrosamente em nós. Agora, temos de a procurar tateando, interrogando-nos cada dia se não estaremos enganados.

Para dar uma resposta adequada saiu de si mesmo, sim, mas não como fuga precipitada, mas como paciente peregrino que descobre e segue exatamente os sinais do percurso. A sua sede, longe de levá-lo à deriva até a um intimismo narcisista, levou-o àquelas fontes onde ele foi capaz de orientar as preocupações sociais, pastorais e espirituais que estavam no seu coração. Uma realidade de rostos e de vozes profundas perguntava-lhe: Em Saint-Quentin faltam, como meios de ação, um colégio, um patronato e um jornal católico. Assistido pela graça e por bons conselheiros, o Padre Dehon não atraiçoou o seu coração. Apesar das incompreensões e das adversidades, a sua tensão interior e a sua calorosa preocupação não foram defraudadas. Ele encontrou a chave: Se transbordo de amor para com Deus e para com almas, a paz e a alegria reinarão no meu coração.

3. Em todas as coisas pede ao Altíssimo (Sir 37,15)

O terceiro aspecto coloca-nos perante uma das mais fortes convicções do Padre Dehon: Toda vida apostólica deve ser longamente preparado com a oração e o estudo. Sentindo-se profundamente amado, procurou, em cada momento, corresponder ao amor de Deus. Este amor do Pai, contemplado várias vezes no mais íntimo do Filho, comprometeu-o com o Reino, levou ao encontro dos outros, impulsionou-o para a missão: O Coração de Jesus sempre se recordou de nós, recordemo-nos sempre d’Ele, não tenhamos outro amor que não o seu. Nas nossas orações peçamos o seu Reino, o seu triunfo pelo amor, rezemos pelo nosso próximo, amemos as almas como Jesus as ama e coloquemo-nos na disposição de trabalhar e de sofrer por elas, na medida em que Jesus achar por bem.

A súplica de Dehon é a de um discípulo que reconhece, assombrado, a bondade do mestre: Vinde à escola do meu coração, diz-nos, meditai nas disposições do meu coração e vereis que a humildade e a doçura são as características próprias. Imitai esta humildade e esta doçura e encontrareis o segredo da paz. Na medida em que implora, Dehon aprende e vai ainda mais além na pedagogia do coração que tanto ama: Estende o seu império sobre as almas, não pela força, mas pela persuasão, pela fé e pela caridade. A sua vida torna-se, assim, uma prolongada meditação deste amor: Se eu quero obter os favores divinos, eis aqui o caminho: seguir fielmente Jesus, meditar em todos os seus mistérios, do início ao fim, deixar-se invadir pelos sentimentos do seu Sagrado Coração e reproduzir as suas virtudes.

Este é o nosso tempo. Temos de continuar a tarefa educativa do Padre Dehon ao serviço do Reino. Os homens e as mulheres de hoje, os jovens e as crianças de tantas proveniências e condições apelam à nossa criatividade e à nossa audácia. Não faltam desafios nem oportunidades. Ensinaremos aquilo que aprendemos bem: deixar-se acompanhar, atenção ao coração, súplica ao Altíssimo. O próprio Padre Dehon recorda-nos que isso é um conteúdo indispensável: Convém que os sacerdotes consagrados ao seu amor façam da educação da juventude a sua obra de predileção. Ensinarão às crianças a arte tão simples de amar.

Juntos, demos vida ao estilo que o Padre Dehon nos transmitiu: ensinemos aqueles que não sabem e aconselhemos os que necessitam, procurando as pessoas piedosas, escutando os conselhos do nosso coração e invocando a ação do Altíssimo.

Que este itinerário seja percorrido por cada pessoa e entre também na nossa comunidade, para o Coração de Jesus se torna fonte de graça para todos aqueles com quem nos cruzamos no caminho.
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Roma, 04-03-2017

Pe. Heiner Wilmer, SCJ  e seu Conselho 

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