A VOCAÇÃO DE PADRE DEHON NA MÍSTICA DO CORAÇÃO DE JESUS

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Primeiramente, cada vocação cristã encontra o seu fundamento na eleição prévia e gratuita por parte do Pai, “que nos abençoou com toda a espécie de bênçãos espirituais nos céus em Cristo. Nele nos escolheu antes da criação do mundo, para sermos santos e imaculados diante dele no amor. Ele nos predestinou para sermos seus filhos adotivos, por Jesus Cristo, segundo o beneplácito de sua vontade” (Ef 1,3-5). Neste sentido, toda a vocação cristã vem de Deus, é um dom divino. Todavia ela nunca é oferecida fora ou independentemente da Igreja, mas passa sempre na Igreja e mediante a Igreja.

Além desse incomensurável dom da infinita misericórdia divina, certamente a vocação é um mistério imperscrutável, que coinvolve o relacionamento que Deus instaura com o ser humano na sua unicidade e irrepetibilidade, um mistério que deve ser percebido e sentido como um apelo que espera uma resposta nas profundezas da consciência, “naquele sacrário do homem onde ele se encontra a sós com Deus, cuja voz se faz ouvir na intimidade do seu ser” (Gaudium et Spes, 16). Por fim, a vocação é um dom de Deus, que constitui um grande bem para aquele que é o seu primeiro destinatário. Mas é também um dom para a Igreja inteira, um bem para a sua vida e missão. E nessa missão da Igreja, o vocacionado está ligado também com o seu carisma. Por tanto, temos aqui os fundamentos essenciais da teologia da vocação.

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A vocação de Padre Dehon enraizada no carisma do Coração

 Como já lembramos na introdução acima, cada vocação está sempre sob o signo da graça da providência divina. De fato, Padre Dehon recebeu e cultivou a semente de sua vocação no seio da família, principalmente de sua mãe, Estefânia, mulher terna e piedosa, pois ele mesmo chegou a escrever: “Minha mãe domina minhas recordações mais distantes. Eu não a deixava nunca. (…). Ela me ensinou a rezar, e a recordação de minhas orações de criança está muito viva em mim. Por nada deste mundo, ela deixava de convidar-me a rezar pela manhã e à noite. A bela alma de minha mãe vivia em mim” (Notes sur l’histoire de ma Vie, I, 5-7). O menino Leão herdou da mãe os valores da fé, da religião. Foi ela que o ensinou a rezar e a cultivar a devoção do Coração de Jesus, à Santíssima Virgem, a São José: “Estas devoções nasceram em mim com o uso da razão. A bela alma de minha mãe passava um pouco para a minha…” (NHV I, 6v-7r). É importante ter sempre bem presente que a história da vocação de Padre Dehon é uma realidade dinâmica sob a graça da providência que aponta para o amor do Coração de Jesus.

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Assim, a devoção ao Coração de Jesus que já havia recebido de sua mãe, na infância, e cultivado no seminário, foi se aprofundando cada vez mais no contato com as Servas do Coração de Jesus, de São Quintino, das quais era capelão. Sempre conservará gratas recordações destas religiosas. Mas é no primeiro ano de colégio, em Hazebrouck, utilizando como guia espiritual o Manual do Sagrado Coração de Jesus, que a mãe lhe tinha presenteado, que o jovem Dehon se sensibiliza para as necessidades materiais do próximo, colaborando nas conferências de São Vicente de Paulo. Durante os anos de seminário, a sua alma abre-se ainda mais a essas atitudes espirituais, que vão mais tarde constituir sua Espiritualidade: “Nosso Senhor bem depressa tomou posse do meu íntimo e aí estabeleceu disposições que deveriam ser a nota dominante da minha vida, apesar de tanta faltas: a devoção ao Seu Coração, à humildade, à conformidade à sua vontade, a união com Ele, à vida de amor… Nosso Senhor preparava-me assim para a Missão que me reservava em favor da obra do seu Coração” (NHV IV, 183), escreverá o Padre Dehon, ao recordar os seus tempos de seminarista.

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De modo particular, no ano de 1867, ao receber as ordens maiores, medita demoradamente nos mistérios da vida do Senhor, sublinhando o aspecto vitimal de Jesus e chega à conclusão: “Somos vítima perene” (Natal 1867. NQ I, 10); “vítima de amor, de louvor e de reparação” (Epifania, 1868. NHV V, 190). Quanto à vocação reparadora de Padre Dehon, cabe aqui uma importante observação de padre Avelino Diez a respeito ao “espírito da reparação”. Segundo este padre, até 1877, não constava em seus escritos a ideia de “reparação”, ou “vocação reparadora”. Até esta data, a nota que caracteriza sua vida espiritual é, antes de tudo, a vida de união com a pessoa de Jesus, algumas vezes fala também de união com Jesus e seu Coração.

No período romano (desde 25.10.1865) afirma que “Nosso Senhor é o modelo perfeito da vida interior por sua união perfeita com o Pai”. Em São Quintino, seu ideal de sacerdote é idêntico: “Consagro-me a Jesus Cristo, a seu divino serviço e trabalharei para me unir a seu coração, a suas virtudes, a sua missão inseparável com o Pai”. Esse desejo de união o põe diante da vida religiosa, pois, até então, nunca ele tinha sonhado com uma vida consagrada ao Coração de Jesus em espírito de reparação. Padre Dehon conhecerá esse espírito dirigindo as Religiosas Servas do Sagrado Coração. A superiora tinha lhe falado de seu projeto: uma congregação de sacerdotes dedicada à reparação.

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Esses breves testemunhos do próprio Padre Fundador são suficientes para nos comprovar a origem de sua espiritualidade centrada no Cristo, unido ao amor e a seu Coração, como graça já presente em sua infância e, a partir de 1877, começa a aflorar a ideia do espírito de vítima de amor e de reparação. Assim, após uma rápida revisita à sua memória de juventude, dos tempos de seminário e, como conferencista e confessor das religiosas Servas do Sagrado Coração em São Quintino, torna-se cada vez mais claro o núcleo de sua Espiritualidade, o coração do seu carisma, como tão bem definido nas atuais Constituições no número 6: “Padre Dehon quis que seus membros unissem, de maneira explícita, sua vida religiosa e apostólica à Oblação Reparadora de Cristo ao Pai pelos homens” (resumindo): União à Oblação Reparadora de Cristo ao Pai em favor da Humanidade.

Toda a vocação de Padre Dehon é o Coração de Jesus

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 A Congregação tem sua origem na experiência de fé vivida por Padre Dehon. Experiência que São Paulo traduz nestas palavras: Minha vida presente na carne, eu a vivo pela fé no Filho de Deus, que me amou e se entregou a si mesmo por mim (Gl 2,20).

O Lado aberto e o Coração transpassado do Senhor constituem para Padre Dehon a expressão mais evocadora daquele amor cuja presença atuante ele experimenta em sua própria vida (Constituições 1-2). Aqui está toda a raiz de sua vocação que por graça do Espírito Santo nasceu a nossa Congregação. Toda a mística e paixão da vocação do Padre Dehon é o Coração de Jesus. E insiste ainda: “O Evangelho é como a Eucaristia, o Sacramento do Coração de Jesus. O divino Coração está lá, escondido como seu amor e os seus tesouros de graça e de vida” (OSp II, 261-262). Aí está todo o mistério da pessoa viva do Verbo eterno do Pai que se imolou na Cruz. Aí está a originalidade típica e a paixão de Padre Dehon que o inspirou a viver sua vocação de amor do Coração de Deus: o Ecce venio de Cristo.  E, é assim que no dia 12 de agosto de 1925, Padre Dehon aponta para a imagem do Coração de Jesus e exclama com voz forte: “Por Ele vivi, por Ele morro”.

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