A Quaresma e a profecia de um novo coração (Ez 36,26).

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Iniciamos o tempo da Quaresma com o grande apelo: “Convertei-vos e crede no evangelho”, pois este é um tempo favorável. Porém, a verdadeira conversão não é simplesmente a mudança de algumas atitudes que consideramos incoerentes com a nossa opção de fé; mesmo que a conversão moral seja importante, não é apenas isso que se exige para uma verdadeira mudança de vida. A conversão no sentido bíblico (grego: metanoia) significa um longo caminho no plano existencial de mudança profunda e radical, que provoca na pessoa uma nova maneira de pensar, julgar e reorientar a sua vida. E isso não se dá por puro esforço e boa vontade humana, mas o sujeito principal dessa transformação é o próprio Deus que, através do seu Espírito, age no coração do ser humano que a ele se abre e aceita mudar esse mesmo coração. A manifestação máxima desse agir misericordioso de Deus se deu através do seu Filho Jesus, cuja morte e ressurreição são a prova irrefutável.

Engana-se quem pensa poder converter-se por suas próprias forças; se não houver uma abertura de coração, na humildade e confiança, alguns passos serão dados, mas o caminho não será feito. Portanto, a Quaresma se torna escola indispensável para quem quer aprender como deixar-se converter pela ação de Deus, que cumpre a sua promessa expressa por Ezequiel: “Dar-vos-ei um coração novo, porei no vosso íntimo um espírito novo” (Ez 36,26). Porém, Ezequiel continua a sua profecia dizendo qual a finalidade deste agir de Deus: “Porei no vosso íntimo o meu espírito e farei com que andeis de acordo com os meus estatutos e guardeis as minhas normas e as pratiqueis” (Ez 36,27-28). Por isso, a conversão não é ditada pela nossa compreensão do que devemos mudar, mas daquilo que o próprio Deus nos indica através de sua palavra. A conversão exige a disposição de querer apreender o caminho da mudança necessária.

Na escola quaresmal, o Mestre é o próprio Jesus, que nos convida a seguir seus passos a fim de nos tornarmos seus autênticos discípulos, partilhando da sua vida: “Quem quiser me seguir, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e me siga” (Mc 8,34). É seguindo o seu caminho, aprendendo de seu coração manso e humilde (Mt 11,29) que o nosso coração de pedra, orgulhoso e arrogante vai se transformando em coração de carne. O primeiro passo do longo caminho de conversão não é iniciativa nossa, mas convite do próprio Senhor que se aproxima de nós, lança-nos o seu apelo e aguarda a nossa resposta livre e generosa. As maneiras de chamar são diversas e superam nossos esquemas prefixados, por isso devemos estar abertos e atentos para perceber a criatividade de Deus que nos convida permanentemente a uma vida nova, a palmilhar uma estrada que conduz à plenitude de vida.

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A Quaresma nos ajuda a tomar consciência do chamado de Deus a fim de que nos preparemos de tal forma que, em nós, se realize a profecia de um novo coração. A celebração da Páscoa, cujo centro é a morte do Cordeiro e a sua vitória, é o testemunho de que Deus cumpre o que prometeu. Chama-nos a atenção que o profeta Ezequiel antes de anunciar que o Senhor dará um coração novo, fale de uma purificação: “Borrifarei água sobre vós e ficareis purificados; sim, purificar-vos-ei de todas as vossas imundícies e de todos os vossos ídolos imundos” (Ez 36,25). Portanto, dois aspectos fundamentais: purificação como preparação e realização do dom de um novo coração. Se a Quaresma é tempo de preparação, a Páscoa é a realização plena do dom, pois é o Cristo, pendente da cruz, que nos purifica quando fez jorrar do seu lado aberto sangue e água (Jo 19,34), por conseguinte, a profecia de Ezequiel se cumpre plenamente: Deus derrama o seu espírito e transforma o coração do homem segundo o coração do seu Filho. O verdadeiro discípulo, que segue os passos do Mestre, deixando-se orientar pela sua palavra que purifica, coloca-se numa atitude de contemplação diante do crucificado para fazer a experiência de ser purificado pela água que jorra e receber a vida nova do sangue que brota do seu lado aberto.

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Padre Andre

Pe. André Vital Félix da Silva, SCJ. Mestre em Teologia Bíblica pela Pontifícia Universidade Gregoriana. Professor nos Seminários de Campina Grande-PB, Caruaru-PE e João Pessoa-PB. Membro da Comissão Teológica Dehoniana Continental – América Latina (CTDC-AL).

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