BRE: Reflexão VIII Domingo Tempo Comum – “Mt 6,24-34: Contemplar para vencer a idolatria”

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Por: Pe. André Vital Félix da Silva, SCJ

Texto também disponível em: dehonianosbre.org

A perícope evangélica deste VIII Domingo do Tempo Comum evidencia a dimensão contemplativa do Mestre Jesus: “Olhai os pássaros do céu… Olhai como crescem os lírios do campo”. Nesses seus ensinamentos, revela-se o seu olhar profundo dirigido ao ser humano e à criação inteira. Só quem penetra na profundidade da vida através da contemplação é capaz de distinguir os ídolos, que aprisionam, do Deus que liberta e dá vida plena, pois é amor providente. A afirmação de Jesus: “Ninguém pode servir a dois senhores”, pode parecer tão óbvia, mas ao mesmo tempo indica a tensão muito presente na vida de tantas pessoas. De fato, há pessoas que teoricamente se dizem servidoras de um senhor, mas na prática servem a outro. Servir (grego: doulein) na Bíblia não se reduz simplesmente a um fazer algo obrigado para o patrão (senhor), mas é, antes de tudo, a relação que se cultiva entre o servo e o seu senhor, levando-os a um conhecimento mútuo (daí a palavra culto utilizado para serviço religioso). No mundo antigo os servos pertenciam aos seus respectivos senhores e, portanto, deviam estar a seu serviço todo o tempo; estavam sempre de prontidão para responder às ordens dos patrões. Muitos deles eram tão estimados por seus senhores a ponto de serem considerados da família. Portanto, chegava-se a estabelecer relacionamentos tão singulares que não era possível ser servo de mais de um senhor.

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No âmbito da religião, porém, é muito comum acontecer esta incoerência: por um lado, faz-se uma série de coisas para Deus (orações mecânicas, rígidas práticas de piedade etc.), mas por outro, alimenta-se a expectativa de receber benefícios materiais, prosperidade, sucesso, bem-estar, isso indica que aquilo que está sendo cultivado (objeto do culto) não é Deus, mas um outro senhor (mamon: bens materiais, riqueza). Não é mais um serviço onde se cultiva a gratuidade da relação, mas a avareza compulsiva de quem espera recompensa, retribuição, pagamento. Portanto, Deus é trocado por um ídolo, isto é, a projeção míope de uma concepção de vida reducionista onde não se enxerga nada mais do que a sua dimensão material. Portanto, abandona-se a capacidade de contemplar a vida, a criação, para assumir uma postura arrogante de querer possui-las, dominá-las arbitrariamente, e transformar tudo em fonte de prazer momentâneo e segurança material. Por conseguinte, as virtudes que deveriam levar o ser humano a crescer em liberdade são substituídas por vícios que o reduzem a um animal movido simplesmente pelas necessidades e instintos, aprisionando-o à esfera material.

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Hoje em dia há uma tendência muito forte nos ambientes ditos religiosos de distorção do verdadeiro culto, isto é, não mais se cultua (serviço) a divindade, mas cria-se uma dependência-escravidão a ídolos, portanto, o serviço torna-se servidão. Não importa mais conhecer a Deus e a sua vontade, para tornar-se uma pessoa livre, cujo sinal mais evidente dessa liberdade é a sua capacidade contemplativa, mas a tendência de muitas seitas e grupos religiosos é induzir as pessoas à ilusão de submetendo-se a ídolos, terão garantidos o bem-estar material, prazer, vantagens e resoluções mágicas dos seus problemas.

Ainda que sejam necessidades reais: comer, beber, vestir-se, a vida é mais do que isso. Por isso Jesus desafia os seus discípulos a passarem da simples constatação do que necessitam para a contemplação do que já é ofertado gratuitamente. Jesus, o contemplativo por excelência, provoca os seus discípulos a contemplarem os pássaros, que apesar de terem a necessidade do alimento que encontram na terra, não são escravos do chão, mas voam nos céus; a contemplarem os lírios do campo, que mesmo necessitando de estarem enraizados na terra para viver, exibem a sua formosura erguendo-se do chão em direção ao céu; ainda que precisem dos nutrientes da terra, exalam um perfume que alcança as alturas.

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A cegueira do ser humano o faz ver apenas a dimensão material de sua existência, correndo o risco de fazer dele um servidor de ídolos; a pouca fé denunciada por Jesus é a incapacidade de contemplação, que impede de descobrir o verdadeiro sentido da existência que é: “Buscar o Reino de Deus a sua justiça”. Confiar na Providência não é cruzar os braços diante da responsabilidade e tarefas da vida, mas é comprometer-se com a instauração do Reino de Deus, vivendo as bem-aventuranças e, assim, tudo o mais virá por acréscimo.

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Padre Andre

Pe. André Vital Félix da Silva, SCJ. Mestre em Teologia Bíblica pela Pontifícia Universidade Gregoriana. Professor nos Seminários de Campina Grande-PB, Caruaru-PE e João Pessoa-PB. Membro da Comissão Teológica Dehoniana Continental – América Latina (CTDC-AL).

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2 respostas para BRE: Reflexão VIII Domingo Tempo Comum – “Mt 6,24-34: Contemplar para vencer a idolatria”

  1. Salesia de Medeiros Wanderley disse:

    Como sempre, uma bela reflexão nos é presenteada por Pe. André. Só temos que louvar ao nosso Deus por mais uma oportunidade de crescimento espiritual. 🙏🏼

  2. Neiva Lobato Sampaio disse:

    Obrigada, Pe. André! Enviando tbem pelo Zap compartilho com mais pessoas que saboreiam a palavra de Deus e procuram colocá-la de prática!…

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