BRE: Reflexão IV Domingo Tempo Comum – “Mt 5,1-12: Ter felicidade nem sempre é ser feliz!”

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Por: Pe. André Vital Félix da Silva, SCJ

Texto também disponível em: dehonianosbre.org

O Sermão da Montanha (Mt 5–7), cuja porta de entrada são as Bem-aventuranças, serve de introdução e, ao mesmo tempo, síntese de boa parte do ensinamento de Jesus recolhido por Mateus no seu evangelho. As afirmações de Jesus proclamando quem são os verdadeiramente bem-aventurados, segundo a lógica do Reino (pobres, aflitos, mansos, sedentos e famintos de justiça, misericordiosos, puros, artífices da paz e os perseguidos por causa do Reino), contrastam drasticamente com tudo aquilo que a lógica do mundo propõe como sinal e garantia de ter felicidade. Se para a sociedade hodierna a felicidade se alcança com pílulas mágicas, atitudes isoladas e libertinas, impulso imediatista em busca de fama, poder, prazer, riquezas, para Jesus é bem-aventurado quem pauta a sua vida segundo os valores do Reino. As nove bem-aventuranças são colocadas numa relação de interdependência de tal modo que não é possível pensar uma sem as outras. Portanto, não dizem respeito a classes de pessoas distintas (pobres, mansos etc.), mas indicam atitudes interiores fundamentais exigidas a toda pessoa que decide seguir o Cristo.

Mais do que pensar em nove bem-aventuranças separadas, poderíamos dizer que há apenas uma bem-aventurança que se desdobra nas outras. Pois não é possível tornar-se discípulo de Jesus sem assumir o seu estilo radical de vida, Ele que sendo rico se fez pobre (cf. 2Cor 8,9). Pobre “em espírito” não é miséria imposta pela avareza e ambição humanas, mas pobreza assumida como desapego de tudo aquilo que torna a vida pesada, estagnada, sem fruto. É esvaziar-se de tudo aquilo que nos torna um nada, para ser preenchido pela presença Divina, que torna o espírito do ser humano sua morada preferida, recuperando a sua mais alta dignidade e condição. À medida que o discípulo vai se configurando ao Mestre pobre, passa pela aflição diante das perdas naturais da sua opção. O jovem rico (Mt 19,22), quando foi desafiado a dar tudo aos pobres e seguir a Jesus, ficou profundamente triste (aflito), mas preferiu ficar sozinho com a sua riqueza a ser consolado, isto é, a vencer a sua solidão seguindo o Senhor. Se ele tivesse feito opção pela pobreza em espírito, certamente diante da sua aflição, teria encontrado consolo.

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Os pobres consolados na sua aflição tornam-se mansos, isto é, tendo renunciado aos bens materiais são capazes de renunciar a impor-se aos demais de modo violento.

Contudo, mansidão não é passividade, indiferença diante da vida, mas é a condição que dá equilíbrio ao coração humano sedento e faminto de justiça, que significa a busca do conhecimento da vontade de Deus e o compromisso de colocá-la em prática (Mt 7,24). Vontade que se traduz em misericórdia como ensina o próprio Senhor: “Ide e aprendei o que significa: Misericórdia é o que eu quero, e não sacrifício” (Mt 9,13). Só quem tem sede e fome de justiça age com misericórdia e testemunha que fez a experiência da misericórdia de Deus. Isto torna o seu coração purificado e leva-o a ver Deus presente através do bem que é realizado.

Quando se consegue ver a Deus, sobretudo no semelhante, o outro deixa de ser um inimigo, um adversário; por conseguinte, não há razões mais para a guerra e a paz começa a ser construída. Tornar-se artífice da paz não é apenas uma exigência requerida por conjunturas históricas e ideológicas, mas é a consequência natural da entrega de Jesus: “Ele é a nossa paz: de ambos os povos fez um só, tendo derrubado o muro de separação e suprimido em sua carne a inimizade… por meio da cruz” (Ef 2,14.16). E isso Ele conseguiu através de sofrimentos, perseguição, culminando com a sua morte na cruz; portanto, para os seus discípulos não pode haver um destino diferente. O próprio Senhor adverte: “Não existe discípulo superior ao mestre… Basta que o discípulo se torne como o seu senhor” (Mt 10,24).

Jesus conclui as bem-aventuranças fazendo um convite aos seus discípulos: “Alegrai-vos e exultai”. Lembra-nos o Papa Francisco na sua Exortação Apostólica Evangelii Gaudium n. 1: “A ALEGRIA DO EVANGELHO enche o coração e a vida inteira daqueles que se encontram com Jesus. Quantos se deixam salvar por Ele são libertados do pecado, da tristeza, do vazio interior, do isolamento. Com Jesus Cristo, renasce sem cessar a alegria”. Portanto, a alegria do evangelho não é uma reação eufórica de quem sente um prazer de momentos, mas é vigorosa e perseverante expressão de quem fez a experiência do encontro com o Bem-aventurado por excelência, Aquele que se fez pobre, assumiu nossas aflições, teve o seu coração humilde e manso traspassado, derramou seu sangue para reconciliação universal instaurando a paz, foi injustamente perseguido e caluniado, e testemunhou que nunca perdeu a alegria pois esta lhe vinha do Pai que ocultou as coisas do seu Reino aos sábios e doutores e revelou aos pequenos, isto é, a quem se reconhece pobre primeiro passo para ser bem-aventurado.

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Padre Andre

Pe. André Vital Félix da Silva, SCJ. Mestre em Teologia Bíblica pela Pontifícia Universidade Gregoriana. Professor nos Seminários de Campina Grande-PB, Caruaru-PE e João Pessoa-PB. Membro da Comissão Teológica Dehoniana Continental – América Latina (CTDC-AL).

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2 respostas para BRE: Reflexão IV Domingo Tempo Comum – “Mt 5,1-12: Ter felicidade nem sempre é ser feliz!”

  1. Maria do Socorro Rodrigues disse:

    Agradeço o envio.

  2. Pingback: Arquidiocese de Olinda e Recife

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