BRE: Reflexão Solenidade da Santa Mãe de Deus – “Lc 2,16-21: Salvação sem Salvador?”

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Por: Pe. André Vital Félix da Silva, SCJ

Texto também disponível em: dehonianosbre.org

A Solenidade da Divina Maternidade de Maria (Theotokos) é uma consequência natural do anúncio jubiloso da noite santa do Natal: “Nasceu para vós o Salvador, que é o Cristo Senhor”; o nascimento de uma criança nos remete à sua origem mais próxima e incontestável: o seio de sua mãe. Portanto, afirmar que o menino que nasceu na gruta de Belém é o Deus que se fez carne, é reconhecer que a sua mãe é Mãe de Deus. “Mãe de Deus” não é um título honorífico que a Igreja inventou para prestar uma homenagem a Maria. Mas é o reconhecimento da realidade mais íntima e verdadeira que se estabeleceu, por obra do Espírito Santo, entre a Virgem de Nazaré, chamada Maria, e o Filho do Altíssimo, Jesus de Nazaré, o Verbo Encarnado. Ele não nasceu de uma deusa, pois assim continuaria sendo só um deus, mas nasceu de uma mulher, por isso se fez homem, assumindo a nossa condição, mesmo sem deixar de ser o Deus onipotente e eterno.

A Divina Maternidade de Maria representa a expressão máxima da bênção de Deus para a humanidade. Assim como o povo de Israel, através da oração e invocação sacerdotais de Aarão e seus filhos (1ª Leitura), era abençoado por Deus a fim de ser-lhe garantida a plenitude dos bens: “O Senhor volte para ti o seu rosto e te dê a paz (Shalom)”, na plenitude dos tempos, a bênção por excelência nos chega através de uma mulher (2ª Leitura), cujo filho nos traz a plenitude da salvação, pois o seu nome é Jesus: Deus Salva, aquele que nos liberta de toda escravidão. A festa de hoje nos diz que o Salvador tomou a iniciativa de vir até nós; no seio de uma mulher, uniu-se a toda a humanidade e não apenas a um povo ou a uma cultura particular. Portanto, ir ao encontro do Salvador é tomar a estrada da verdadeira humanização que alcança plenitude na experiência de salvação. É inegável a riqueza plural da experiência religiosa de toda a humanidade nas suas diferentes culturas e cosmovisões; uma humanidade que sempre almejou a salvação, que sempre buscou irresistivelmente a plenitude da vida. Reconhecer esse desejo de salvação universal não é suficiente para fazer a experiência de salvação; é preciso encontrar-se com o Salvador. O Vaticano II nos recorda: “Na realidade o mistério do homem só se torna claro verdadeiramente no mistério do verbo Encarnado… Cristo manifesta plenamente o homem ao próprio homem e lhe descobre a sua altíssima vocação” (GS 22).

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Por isso, Jesus não é simplesmente mais um símbolo de Deus na jornada espiritual do homem, mais um ser humano iluminado e dotado de excelentes virtudes, que aponta para uma realidade transcendente. Ele é o Salvador da humanidade, pois não catalisa apenas os desejos do ser humano por Deus, mas Ele é o próprio Deus que vem em busca do ser humano.

O evangelho de hoje nos apresenta, de maneira simples e profunda, a experiência do encontro com o Salvador. Os pastores, depois de terem ouvido o anúncio do anjo, partiram para Belém. A Boa Notícia de que Deus nos enviou o Salvador é “o primeiro serviço que a Igreja pode prestar ao homem e à humanidade inteira” (João Paulo II, Redemptoris Missio, 2). A fé em Cristo Salvador não é imposição que tira a liberdade do ser humano, mas deve ser proposta por quem, no encontro pessoal com Ele, fez a experiência do maravilhar-se com o dom da salvação, da vida nova; considerando um grande bem, não o retém egoisticamente, mas o comunica aos outros como serviço generoso e de gratidão.

Bento XVI, em Aparecida (2007), afirmou: “A Igreja não faz proselitismo. Ela cresce muito mais por ‘atração’: como Cristo ‘atrai todos a si’ com a força do seu amor, que culminou no sacrifício da Cruz, assim a Igreja cumpre a sua missão na medida em que, associada a Cristo, cumpre a sua obra conformando-se em espírito e concretamente com a caridade do seu Senhor”. Os pastores quando confirmaram, ao encontrar-se com o recém-nascido deitado na manjedoura, tudo o que lhes fora dito sobre o menino, provocaram uma grande alegria nas pessoas que os ouviam. Esta é a verdadeira e eficaz evangelização.

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O Papa Francisco nos encoraja a fazer essa mesma experiência quando nos diz: “A ALEGRIA DO EVANGELHO enche o coração e a vida inteira daqueles que se encontram com Jesus. Quantos se deixam salvar por Ele são libertados do pecado, da tristeza, do vazio interior, do isolamento” (EG 1). O grande desafio no anúncio dessa boa notícia de salvação é recuperar a sua simplicidade e autenticidade. O mesmo sinal que fora dado pelo anjo aos pastores para que reconhecessem o Salvador continua ainda hoje válido para fazermos a experiência do encontro com Ele: “um menino envolto em faixas e deitado na manjedoura”. Os padres da Igreja viram nessas faixas uma referência às Escrituras do Antigo Testamento, como dirá a Dei Verbum: “Deus dispôs sabiamente que o Novo Testamento estivesse escondido no Antigo” (DV 16). Porém, na perspectiva de Lucas, as faixas fazem referência à morte de Jesus: “Envolvendo-o num lençol, colou-o numa tumba”. Portanto, o encontro com o Senhor exige conhecimento de toda a sua vida, morte e ressurreição, experiência iluminada pela Palavra de Deus.

Deitado numa manjedoura” é o outro sinal para reconhecer o Salvador. A manjedoura é o lugar onde se oferece o alimento, Jesus é o Salvador porque se fez nosso alimento, entregando a sua vida para que tenhamos vida em plenitude. A experiência da Eucaristia é o momento privilegiado do encontro com o Salvador, pois é ali que Ele nos nutre ricamente com a sua palavra e com o seu corpo e sangue. Mais uma vez, exige-se de nós conhecimento de toda a pessoa do Salvador. Vale notar que tanto a manjedoura quanto a sepultura é o lugar de colocar Jesus deitado (mesmo verbo: keimevos Lc 2,13.16; 23,53). Portanto, o menino deitado na manjedoura é o mesmo homem deitado no sepulcro. Na manjedoura o Verbo se abreviou, fez-se pequeno para que pudéssemos compreendê-lo (VD 12), mas abandonando o sepulcro, fez-nos compreender que o seu amor é infinito a ponto de não poder ser aprisionado por nada e por ninguém, pois é este amor que nos salva.

Que este tempo de Natal nos ajude a fazer a experiência da Mãe de Deus: “Guardava todos esses fatos e meditava sobre eles em seu coração”. Sendo mãe do Filho de Deus, Maria Mãe de Deus nos aponta o caminho eficaz para fazer a experiência do encontro com Aquele que traz a salvação, pois só Ele é Jesus.

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Padre Andre

Pe. André Vital Félix da Silva, SCJ. Mestre em Teologia Bíblica pela Pontifícia Universidade Gregoriana. Professor nos Seminários de Campina Grande-PB, Caruaru-PE e João Pessoa-PB. Membro da Comissão Teológica Dehoniana Continental – América Latina (CTDC-AL).

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3 respostas para BRE: Reflexão Solenidade da Santa Mãe de Deus – “Lc 2,16-21: Salvação sem Salvador?”

  1. Padre Valmir Antonio disse:

    Deus o alimente sempre com o Evangelho e a Eucaristia a fim de termos as riquezas dessas meditações.

  2. Laiane disse:

    Mãe de Deus e Maria
    Então ela é nossa mãe ?

  3. Lindalva gomes de assis disse:

    Suas publicações são sempre fortes chaves de leitura para trabalhar o processo da espiritualidade natalina nesse mundo tão conturbado. Simplicidade e autenticidade!!!!! a força da graça no mundo da violência…..

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