BRE: Reflexão IV Domingo do Advento – “Mt 1,18-24: Quando o pesadelo vira sonho.”

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Por: Pe. André Vital Félix da Silva, SCJ

Texto também disponível em: dehonianosbre.org

Ao longo do tempo do Advento, a liturgia nos apresenta alguns personagens bíblicos que nos ajudam na nossa preparação, a fim de celebrarmos bem o Natal do Filho de Deus. Neste IV Domingo somos convidados a contemplar a figura de José, homem justo, cuja característica fundamental é o silêncio. Os evangelhos não reportam nenhuma palavra dita pelo esposo de Maria, mas suas atitudes se encarregam de proclamar as suas virtudes, testemunhando a grandiosidade da sua fé e da sua incontestável obediência ao plano de Deus. Ao introduzir o seu evangelho com a genealogia de Jesus, Mateus quis deixar claro que as promessas feitas no Antigo Testamento se cumpriram no Filho gerado pelo Espírito Santo no seio de Maria, legalmente reconhecido como filho de José, um descendente de Davi, de quem recebeu o nome Jesus (Deus salva).

O evangelista, por sua vez, não se contenta apenas em citar José na árvore genealógica para dar legitimidade real ao menino, cuja origem transcende uma ascendência biológica e cuja concepção no seio virginal de Maria contraria toda a lógica humana e natural.

Considerando o fato de que: “Antes que coabitassem, Maria achou-se grávida”, José vive um verdadeiro pesadelo. Diante dessa realidade e de sua reta consciência, reage com honestidade, uma vez que aquele menino não fora gerado por ele. O que teria acontecido com a sua amada esposa?! Certamente os seus projetos de vida conjugal começavam a ruir. E para atenuar as consequências desastrosas do acontecimento, “não querendo execrá-la publicamente, decide abandoná-la silenciosamente” (advérbio grego: lathra do verbo lathein: esconder). Segundo o costume, o marido podia dar uma carta de divórcio e despedir a sua esposa (Mt 19,8), mas isso deveria ser feito diante de duas ou três testemunhas. Porém, José para preservar Maria de tal vexame, prefere mergulhar o fato no silêncio, que é, como já foi dito, uma das suas principais características. Ele sabe que é no silêncio que se ouve melhor a voz de Deus. Por outro lado, a sua decisão silenciosa se fundamenta numa certeza em relação à sua amada, apesar de não poder negar o fato de uma gravidez incompreensível, ele crê que ela não tem culpa, por isso não a entrega para a morte.

E mergulhado no silêncio, o seu pesadelo transforma-se em sonho, cujo conteúdo não o deixa aflito nem desnorteado, mas é revelação do plano de Deus. Diferentemente dos sonhos do Antigo Testamento (José do Egito, Daniel), o sonho do esposo de Maria não precisa ser interpretado, não é um enigma a ser decifrado, mas é revelação de uma missão a ser assumida: “Não temas receber Maria, tua esposa… Ela dará à luz um filho a quem chamarás com o nome de Jesus”. José não precisa interpretar o mandato do anjo, cabe-lhe apenas obedecer; não precisa renunciar à sua paternidade, mas assumi-la como um verdadeiro pai, pois se para gerar uma vida bastam somente alguns segundos, para ser pai é preciso toda uma vida. Mesmo não tendo gerado Jesus, José o acolheu e assumiu a sua existência, a ponto de estabelecer uma relação estreitíssima com o Filho de Deus que foi identificado como filho do carpinteiro (Mt 13,55).

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No sonho, José é o primeiro a ver que tudo aquilo que o seu povo aguardava, estava se tornando realidade.

Assim como Adão que, depois de ter sido mergulhado no sono, acorda tendo diante de si o grande dom que o próprio Deus lhe preparara, a sua mulher Eva, também José ao acordar do sonho: “agiu como o anjo do Senhor lhe ordenara e recebeu em casa sua mulher”. Ao Adão solitário, o Senhor Deus para arrancá-lo da solidão, entrega-lhe Eva; ao José atribulado pelo pesadelo de ter que perder a sua amada, Deus lhe revela que o seu grande sonho está se realizando, e para isso quer contar com ele, devolvendo-lhe a capacidade de sonhar de novo: “Não temas receber Maria, tua mulher!” José nos ensina que é possível transformar nossos pesadelos em sonhos, quando fazemos a experiência do encontro com Aquele que nos assegura que não estamos sozinhos, o Deus-conosco, o Emanuel.

Advento é tempo de reconhecer que o sonho de Deus se tornou realidade na encarnação do seu Filho, que salvando-nos dos nossos pecados, liberta-nos dos nossos pesadelos, pois esses são apenas sonhos ilusórios, perturbações que emergem dos nossos medos, da nossa presunção de querer interpretar os acontecimentos que nos cercam apenas à luz de uma lógica míope, sem fé e sem esperança.  Advento é tempo de renovarmos a nossa capacidade de sonhar o sonho de Deus e reconhecer que se é de Deus já é realidade, mas se for apenas sonho nosso, não passará de um pesadelo.

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Padre Andre

Pe. André Vital Félix da Silva, SCJ. Mestre em Teologia Bíblica pela Pontifícia Universidade Gregoriana. Professor nos Seminários de Campina Grande-PB, Caruaru-PE e João Pessoa-PB. Membro da Comissão Teológica Dehoniana Continental – América Latina (CTDC-AL).

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