BRE: Reflexão XXIV Domingo Tempo Comum – “Lc 15,1-32: A misericórdia é de Deus, a opção é nossa”

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Por: Pe. André Vital Félix da Silva, SCJ

Texto também disponível em: dehonianosbre.org

Em pleno Ano Santo da Misericórdia, o evangelho deste XXIV Domingo do Tempo Comum nos apresenta o coração do evangelho de Lucas, pois nos fala da misericórdia, isto é, aquilo que está no centro do coração de Deus. Apesar de podermos identificar três partes distintas nessa longa narração do capítulo 15 (ovelha perdida, dracma perdida, dois filhos), estamos, na verdade, diante de um único ensinamento de Jesus: só quem se reconhece pecador e perdido, é capaz de fazer a experiência da misericórdia de Deus e de ser reencontrado pelo Pai. O pecado, realidade universal e inegável por causa de suas consequências, nos coloca a todos, sem exceção, numa condição de necessitados de um reencontro. Reencontro consigo mesmo, com o outro e com Deus. Reencontro com a sua condição primordial de ser criatura de Deus; reencontro com a sua missão fundamental de ser irmão do seu semelhante; reencontro com a sua meta final de ser caminhante rumo à plenitude da vida.

O pastor que vai em busca da ovelha desgarrada e a mulher que diligentemente procura a dracma perdida indicam que o sujeito principal do reencontro é o próprio Deus. A longa tradição bíblica testemunha este compromisso de Deus que, apesar do pecado do seu povo, não o abandona. Contudo, ao perdido, cabe deixar ser reencontrado, ao pecador, compete aceitar ser reconciliado. No seu mistério de amor indizível, Deus vem à nossa procura, toma a iniciativa de nos oferecer perdão, misericórdia, sem se importar se queremos ou não. Nem sempre um doente se submete a um indispensável tratamento por livre e alegre aceitação. A ovelha resgatada ou dracma recuperada não decidiram o reencontro, simplesmente foram “objetos passivos” da decisão do pastor e da mulher. Por outro lado, não foram objetos de uma tirania, não sofreram uma violência destruidora de sua condição; ambas foram recuperadas porque valiam mais do que uma quantidade.

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Mais do que prejuízo material para quem perdeu, pois no conjunto valiam o mínimo (1% para a ovelha, 10% para a dracma), o maior prejuízo era para o perdido. A ovelha fora do rebanho perdeu os cuidados do pastor: a segura condução para o pasto e para as águas, a proteção diante dos perigos das intempéries e o risco de morte diante da ameaça das feras e da ambição dos salteadores. A dracma sozinha perdeu a sua relação com as outras, com as quais poderia formar um colar para embelezar, ou mesmo somando-se às demais teria o seu valor complementado podendo servir para adquirir algo mais valioso, o que sozinha não conseguiria, pois vale muito pouco.

A experiência do pecado revela nossos fundamentais desencontros. O pecador é um desencontrado que, por não se reconhecer criatura de Deus, assume posturas de autossuficiência, egoísmo, isolando-se dos outros, pois se sente dono de sua vida, e a ninguém deve “prestar contas”, pois assim acredita ser a condição para ser feliz (filho mais novo). Pecador é um desfigurado por não se reconhecer irmão do semelhante, inflado de vaidade, pensa-se melhor do que os outros, por isso rompe a sua relação com os demais e prefere viver no seu próprio mundo, fechado em si mesmo (filho mais velho). Pecador é um desencaminhado nas estradas da vida, pois perdeu o rumo da sua existência, rejeitou a sua dignidade de filho e irmão (ambos); consequentemente, prefere os atalhos que conduzem a satisfações momentâneas, abandonando o caminho que conduz à plenitude da vida.

É diante dessa miséria do ser humano que a riqueza da misericórdia de Deus se manifesta. O pastor não busca uma ovelha perdida porque a considera um prejuízo material, pois seria um grande investimento (deixar as noventa em nove, perder tempo na procura, expor-se aos perigos do caminho) para pouca coisa (1%); para ele o que conta é o prejuízo que a ovelha tem, é ela a grande perdedora. Mas porque a ama, é capaz de sacrificar-se para salvá-la. A mulher que perde o seu tempo varrendo a casa mais uma vez, que desperdiça o óleo de sua lâmpada para iluminar excepcionalmente alguns lugares da casa a fim de encontrar aquela moeda, não é motivada apenas por uma sensação de ter perdido um pequeno objeto. Mas considerando a dracma perdida na relação com as outras, reconhece que o prejuízo não é só de uma, mas todas as outras dracmas são prejudicadas, pois a sua falta será desfalque para o conjunto, afetará a beleza do colar, ou diminuirá o valor das demais. Nessas duas comparações, Jesus evidencia as causas do pecado e seus danos em nível pessoal (ovelha) e social-comunitário (dracma). No relato dos dois filhos, tudo isso é retomado com um elemento novo. Para a ovelha e a dracma é Deus o sujeito principal, agora evidencia-se a necessidade de decisão do pecador: “Vou-me embora, procurar o meu pai”. Mesmo sendo procurado por Deus, o pecador deve decidir se aceita ou não ser encontrado por Ele. Isso exige abertura para reconhecer a sua condição atual: “Pequei contra o céu e contra ti”, o lugar para onde decidiu ir e o que preferiu optar e abandonar. Quando abandonamos o pai bondoso, um patrão tirano nos adota, quando renunciamos à filiação gratuita, caímos numa escravidão degradante, quando recusamos o perdão, ficamos fora da alegria da salvação.

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Aquele que nos deu a vida sabe quanto ela custa, e quanto prejuízo se tem quando dela não se cuida. O nosso pecado é não reconhecer esse precioso dom, fazendo dele uma coisa que se pode manipular ao nosso bel-prazer, desperdiçando-a como se fosse apenas algo cujo prejuízo é apenas material, quantitativo, possível de se restituir.  Todos somos aquela ovelha desgarrada, buscada, encontrada e transportada nos ombros do Bom Pastor, contudo em nenhum momento se diz que ela foi acorrentada ou aprisionada no aprisco. Todos somos a dracma que se perde, mas que é buscada, iluminada e encontrada, contudo, jamais aprisionada debaixo de sete chaves para que não se perca mais. Todos somos aqueles dois filhos, como o mais novo, perdido fora de casa por sua vaidade e presunção, ou como o mais velho que, mesmo sem sair de casa, vivia como um escravo do seu pai a quem injustamente reconhecia apenas como patrão. Mas Deus é como o pastor que procura os que se perdem fora de casa (os pecadores e publicanos) ou como a mulher que não desiste de quem se perdeu dentro de casa (fariseus e escribas). Se sai de casa, Ele vai ao encontro, se volta para casa, Ele perdoa e acolhe. A misericórdia é de Deus, a opção é nossa.

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Padre Andre

Pe. André Vital Félix da Silva, SCJ. Mestre em Teologia Bíblica pela Pontifícia Universidade Gregoriana. Professor nos Seminários de Campina Grande-PB, Caruaru-PE e João Pessoa-PB. Membro da Comissão Teológica Dehoniana Continental – América Latina (CTDC-AL).

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Uma resposta para BRE: Reflexão XXIV Domingo Tempo Comum – “Lc 15,1-32: A misericórdia é de Deus, a opção é nossa”

  1. cricidalva Gomes de Araújo disse:

    Pe André, obrigada por essas reflexões que você faz semanalmente as mesmas nos fazem entender a palavra de Deus e nos deixam mais humanizados para conviver com os irmãos que é uma missão árdua mas necessária, que Deus o ilumine sempre para que possas nos transmitir a palavra de Deus.

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