BRE: Reflexão X Domingo Tempo Comum – “Lc 7,11-17: A vida não cabe num caixão!”

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Por: Pe. André Vital Félix da Silva, SCJ

Texto também disponível em: dehonianosbre.org

A perícope deste X Domingo do Tempo Comum (reanimação de um morto) juntamente com a narrativa da cura do servo do centurião pagão (Domingo anterior) antecipam a resposta ao questionamento feito por João Batista, através dos seus discípulos, a Jesus: “És tu aquele que há de vir ou devemos esperar outro?” (Lc 7,18s). Jesus não responde com palavras, mas com fatos: “Ide contar a João o que estais ouvindo e vendo: os cegos recuperam a vista… os mortos ressuscitam e aos pobres é anunciado o evangelho…”. Lucas, assim, sublinha que os milagres que Jesus realiza não são apenas sinais prodigiosos, mas manifestam que Ele é verdadeiramente o enviado do Pai, é o rosto misericordioso do Deus que se faz presente e próximo no meio do seu povo, pois é um Deus que visita o seu povo: “Um grande profeta surgiu entre nós e Deus visitou o seu povo”.

O tema da visita de Deus é muito presente no evangelho de Lucas. Já no Benedictus, Zacarias faz a grande proclamação: “Bendito o Senhor, o Deus de Israel, pois visitou e operou redenção ao seu povo” (Lc 1,68). A visita de Deus é a realização do seu plano de salvação, isto é, a vida em plenitude para o seu povo, a começar pela recuperação da vista aos cegos, a libertação dos oprimidos, a remissão dos pecados, o anúncio da boa notícia aos pobres, o ano da graça, como Jesus declarara no início da sua vida pública (cf. Lc 4,18s). Tudo isso significa a manifestação do amor de Deus que toca as misérias do seu povo, para transformá-las em graça. Sem dúvida, uma das maiores misérias humanas é a solidão, é o sentir-se sozinho e abandonado. O relato do evangelho nos apresenta este drama da humanidade: a solidão que oprime a vida, tirando-lhe a alegria de viver. A solidão antecipa e prolonga a dor da morte.

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A genialidade de Lucas em apresentar as cenas do seu evangelho leva-nos a uma reflexão existencial. A pobre viúva mãe de um filho único, agora morto, representa a humanidade que sofre dolorosamente as consequências da sua solidão. Esta mãe passou por duas grandes perdas: é viúva e seu único filho agora está morto. Portanto, o caixão do morto não é apenas o esquife que o leva, mas também é o coração da sua mãe, pois não se encerrou apenas a vida do filho, mas também a da mãe, uma vez que não tem mais descendência, sua vida também está terminada. Certa vez, uma mãe que acabara de perder seu filho assassinado confessou esmagada pela dor: “Aquela bala não matou só o meu filho, matou a mim também; não foi apenas a cabeça dele que ficou estraçalhada, mas esbagaçado ficou o meu coração. Não tenho mais razão para viver!”

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O evangelista apresenta a visita de Deus como o encontro do extremo da solidão (morte) com Aquele que, movido de compaixão, pode transformar pranto em alegria, pois vence a morte com a vida. Este encontro se dá entre duas multidões à porta de uma cidade cujo nome é Naim, que em hebraico significa amável, bela, formosura ou pastos verdes. Algo contrastante com aquela cena fúnebre. Por um lado, uma multidão segue uma viúva que leva o seu filho, único e defunto, para fora da cidade a fim de sepultá-lo; por outro, uma multidão segue o Senhor que traz a boa notícia de que os cegos recuperam a vista, os doentes reencontram de novo a saúde e os mortos ressuscitam. A primeira multidão vai em direção ao cemitério, lugar dos mortos, símbolo da solidão absoluta. A outra segue o grande profeta que leva o povo para dentro da cidade, lugar da convivência, da vida.

Santo Agostinho afirma que a misericórdia é a experiência do encontro da miséria com o coração. Portanto, Lucas apresenta no seu relato o testemunho de que a visita de Deus favorece tal encontro. Jesus que revela o rosto e o coração do Pai encontra-se com o ser humano nas suas misérias, inclusive a morte. Contudo, tal encontro não provoca a fusão das multidões. A multidão dos seguidores de Jesus não se incorporou ao cortejo fúnebre, nem mesmo por motivações de sensibilidade humana. Mas pelo contrário, o encontro com o Senhor não apenas transformou o defunto em ser vivente, mas mudou o rumo de todos aqueles o que levavam para fora da cidade. Tomado de compaixão, Jesus deixou-se tocar o coração pela miséria humana, e não ficou indiferente.  E não trouxe à vida apenas o jovem, filho da viúva, mas toda aquela multidão pode testemunhar o poder da vida trazida pelo “grande profeta que surgiu entre nós”. Antes de reanimar o filho, Jesus reanimou a mãe: “Não chores”, e consequentemente toda a multidão deixa de ser cortejo fúnebre para se tornar o povo que glorificava a Deus dizendo: “Deus visitou o seu povo… Fazendo ressoar esta palavra por toda a Judeia e circunvizinhança”.

Eis o grande sinal de que fizemos a verdadeira experiência do encontro com o Senhor: mudar de direção (conversão) e de conteúdo (lamentos e choros para o anúncio da boa notícia). A liturgia é o momento por excelência de acolhermos a presença do Senhor que nos tira da multidão que caminha para a morte; é o momento de ouvirmos a sua palavra que não apenas nos diz: “Não chores”, a fim de curar as nossas emoções, mas nos ordena: “Levanta-te” para caminhar, uma imagem bíblica muito eloquente para falar da vida que tem rumo e destino.

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Padre Andre

Pe. André Vital Félix da Silva, SCJ. Mestre em Teologia Bíblica pela Pontifícia Universidade Gregoriana. Professor nos Seminários de Campina Grande-PB, Caruaru-PE e João Pessoa-PB. Membro da Comissão Teológica Dehoniana Continental – América Latina (CTDC-AL).

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