BRE: Reflexão IX Domingo Tempo Comum – “Lc 7,1-10: A fé autêntica nada exige, apenas obedece”

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Por: Pe. André Vital Félix da Silva, SCJ

Texto também disponível em: dehonianosbre.org

O episódio narrado no evangelho deste IX Domingo do Tempo Comum não nos relata apenas mais um milagre de Jesus, perdido na distância do tempo e do espaço. Mas é, antes de tudo, uma lição simples e profunda do que significa verdadeiramente crer em Jesus, condição indispensável para discernir se temos ou não verdadeira fé Nele. Vivemos num mundo repleto de manifestações religiosas, de todas as cores e gostos, onde nos tantos e variados palcos o espetáculo principal é o “show da fé”. Portanto, urge perguntar-se o que, de fato, é a fé e se esta se presta ao espetáculo. A fé como nos ensina o próprio Senhor e testemunha o centurião do evangelho nos colocar noutra perspectiva: mais do que poder mágico que garante a intervenção de Deus, é atitude obediente que acolhe o agir livre de Deus do jeito que Ele quer e como quer.  Contemplar a atitude do centurião pode ser uma boa e profícua experiência para aprendermos o que significa a fé cristã e quais as suas características e implicações.

Os “arautos” da fé-espetáculo insistem que ela é uma força poderosa, mágica, que obriga Deus a atender os pedidos dos seus devotos; ter fé é ser possuidor de uma prerrogativa que deixa Deus sem saída, a não ser submeter-se às exigências dos seus fiéis adoradores.

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Apoiados fundamentalisticamente nas Escrituras, muitos desses pregadores, que induzem as pessoas a pensarem que ter fé é ter autoridade para obrigar Deus a obedecê-las, assemelham-se ao Tentador que quis convencer Jesus de negar as implicações da sua Encarnação, sugerindo que sendo Filho de Deus, Ele poderia jogar-se do alto sem nada sofrer, pois era a Escritura que dava a garantia de que Deus viria em seu socorro (Mt 4,5s; Sl 91,11-12). Que espetáculo não seria: um humano jogando-se num precipício sem nada sofrer, tudo isso assegurado pela fé no poderoso milagre da intervenção de Deus, anunciado e garantido pela sua palavra. Jesus, porém, rejeita tal manipulação da Escritura e afirma que usar a Palavra de Deus para ter domínio sobre Ele é tentar o Senhor. O verdadeiro crente obedece a Palavra, e não a utiliza para obrigar Deus a atendê-lo.

A fé não nos outorga nenhum privilégio que nos torna merecedores ou dignos diante de Deus. A insistência dos anciãos em querer convencer Jesus a fim de que atenda ao pedido do centurião: “Ele é digno de que lhe concedas isto, pois ele ama nossa nação, e até construiu a sinagoga”; revela a mentalidade presunçosa de religiosos que buscam negociar com Deus apoiados nos seus próprios privilégios e interesses. O próprio centurião desmascara este atrevimento e reconhece: “Eu não sou digno que entres em minha casa”; não parece ser falsa modéstia nem muito menos atitude demagógica para provocar um efeito contrário, mas convicção de que a fé humilde e confiante é suficiente para acolher a ação de Deus, deixando-o agir como e quando Ele quiser.

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Enquanto a propaganda do show da fé se robustece com as cenas mirabolantes que evidenciam a ação dos taumaturgos e garantem auditórios repletos e aplausos fervorosos, além das volumosas arrecadações financeiras, a fé autêntica do centurião evita qualquer tipo de espetáculo, de ostentação, pois crê que Jesus pode curar o seu servo apenas com uma palavra. Não é necessário nem mesmo deslocar-se de onde estava, não é necessário que seja seguido por uma multidão para testemunhar o milagre. A autoridade da palavra de Jesus é o que conta, o pedido do centurião é apenas expressão de alguém que porque confia, suplica, mas não impõe. Pede não por si, mas pelo seu servo, é uma fé que testemunha abertura, busca de comunhão. Uma fé que não se restringe a um “Eu e Deus”, mas se insere num horizonte mais amplo, onde os outros também são considerados na sua experiência de crente. Os ditos pregadores da fé-show aparentemente se passam por intercessores dos necessitados, mas na verdade são exploradores dos ignorantes, deformando a sua fé ingênua na ilusão de que têm uma fé-mágica, onipotente, fazendo-os acreditar que tudo podem se creem. No entanto, se por acaso o milagre ainda não acontecer é porque ainda não conseguiram potencializar a fé, não desistam das correntes…

Jesus ao elogiar a fé do centurião: “Eu vos digo que nem mesmo em Israel encontrei tamanha fé”; reconhece a sua humildade e confiança, e denuncia que nem sempre aquilo que se pensa ser expressão de fé, pode-se reconhecer como tal. A fé não se presta ao espetáculo, pois é humilde. Não serve para instrumentalizar Deus, nem muito menos para exaltar milagreiros de plantão e nem ingênuos miraculados. Numa sociedade que vive uma verdadeira compulsividade em busca da fé em milagres, o centurião nos ensina e testemunha que o grande e necessário milagre é a verdadeira fé.

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Padre Andre

Pe. André Vital Félix da Silva, SCJ. Mestre em Teologia Bíblica pela Pontifícia Universidade Gregoriana. Professor nos Seminários de Campina Grande-PB, Caruaru-PE e João Pessoa-PB. Membro da Comissão Teológica Dehoniana Continental – América Latina (CTDC-AL).

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