BRE: Reflexão IV Domingo da Páscoa – “Jo 10,27-30: Nas mãos do Pai, nada a temer!”

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Por: Pe. André Vital Félix da Silva, SCJ

Texto também disponível em: dehonianosbre.org

Neste IV Domingo da Páscoa, celebramos o 53º Dia Mundial de Oração pelas Vocações, instituído pelo Papa Paulo VI (1964) para que em toda a Igreja “eleve-se então ao céu a nossa oração: das famílias, das paróquias, das comunidades religiosas, dos pavilhões dos hospitais, das multidões de crianças inocentes, a fim de que cresçam as vocações e sejam conformes o coração de Cristo”. Este pedido do Beato Paulo VI não cria um hiato no tempo pascal, mas está muito bem inserido nele, pois sempre no IV Domingo da Páscoa proclamam-se trechos de João 10, a grande revelação que Jesus faz de si quando afirma: “Eu sou o bom (grego: kalos, belo) pastor” (Jo 10,11.14). E, sem dúvida alguma, Jesus Bom Pastor é a inspiração e o modelo perfeito para toda vocação.

Apesar de que no ano C lemos apenas a parte conclusiva desse longo discurso do Bom Pastor, não podemos prescindir da sua totalidade. As últimas palavras de Jesus nesse contexto devem ser ouvidas à luz de toda a sua vida e ensinamento como nos apresenta o IV Evangelho, pois aqui evoca-se o tema da vida eterna, já anunciada no Prólogo: “Nele estava a vida…” (Jo 1,4), expressão máxima do amor do Pai e finalidade última da fé em Jesus: “O Pai amou tanto o mundo que entregou o seu Filho único, para que todo o que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna” (Jo 3,16).

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Ao afirmar ser o Bom Pastor, imagem já presente no Antigo Testamento para falar do agir de Deus na relação com o seu povo (Sl 22; 99; Jr 23,1; Ez 34; Mq 2,12-13), Jesus não se apresenta apenas como mais um pastor enviado por Deus, mas deixa claro que Ele mesmo é o Deus que se fez pastor para dar a vida pelas suas ovelhas. Nessa parte final do discurso do Bom Pastor, Jesus sublinha um aspecto que, até então, não tinha aparecido na sua fala, isto é, tanto o Pai como Ele têm as ovelhas em suas mãos e ninguém poderá arrebatá-las (grego: harpázo, levar violentamente para longe).

Na Tradição Bíblica, “ter nas mãos” significa ter o domínio sobre alguém ou alguma coisa, e inumeráveis vezes se diz isso de Deus, sobretudo quando se trata da sua intervenção no Êxodo: “E fez sair Israel do meio deles, com mão forte e braço estendido” (Sl 135,11). Portanto, a missão de Jesus como Pastor não é apenas conduzir as ovelhas para prados verdejantes ou águas tranquilas, mas colocar a sua vida a serviço do rebanho: “O Bom Pastor dá (grego: tithemi, colocar à disposição) a vida pelas ovelhas” (Jo 10,11), a fim de libertá-las e, conservando-lhes a vida, “tenham vida, e vida em abundância” (Jo 10,10). Ainda que para cumprir esta missão, exija-se perder a vida, esta vida dada pelo rebanho é verdadeira entrega: “Ninguém arrebata a minha vida, mas eu a dou livremente” (Jo 10,18).

Enquanto os outros pastores levavam o rebanho para algum lugar onde pudessem encontrar comida e bebida para as suas ovelhas, é Jesus mesmo quem caminha à frente de suas ovelhas (Jo 10,4), pois ele é ao mesmo tempo o caminho (Jo 14,6) e o alimento: “Minha carne é verdadeira comida, o meu sangue é verdadeira bebida” (Jo 6,55). Enquanto a comida e a bebida dadas às ovelhas restauravam as suas energias físicas, Jesus, o Pastor que se dá em alimento, concede vida plena ao seu rebanho: “Eu lhes dou a vida eterna e elas jamais perecerão”. Enquanto os pastores precisam de bastão para defender as ovelhas e cajado para apoiar-se, Jesus recebe do Pai tudo o que necessita para impedir que as ovelhas sejam arrebatadas de suas mãos: “Meu Pai, que me deu tudo é maior que todos”. Pois este é projeto de Deus: “Colocar tudo em suas mãos, pois viera de Deus e a Deus voltava” (Jo 13,3), diferentemente do agir dos falsos pastores que têm no coração apenas o projeto mercenário (Judas Iscariotes) que os faz traidores do rebanho: “Vendo o lobo chegar, abandona as ovelhas e vai para longe”. Estes se associam, portanto, aos ladrões do rebanho que “vêm só para roubar, matar e destruir” (Jo 10,10).

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Enquanto os pastores, ainda que cuidadosos para com as suas ovelhas, um dia terão de levá-las para o matadouro, o Pastor Jesus aceita tornar-se cordeiro para morrer no lugar delas a fim de congregá-las num só rebanho: “É de vosso interesse que um só homem morra pelo povo e não pereça a nação toda…Profetizou que Jesus iria morrer para congregar na unidade todos os filhos de Deus dispersos” (Jo 11,51-52). É Ele o cordeiro imolado na cruz, vítima perfeita e santa cujo osso algum lhe foi quebrado (Jo 19,36), realizando, deste modo, o definitivo Êxodo.

Assim como os pastores, diante do rebanho ameaçado pelas intempéries, devem buscar refúgio para o rebanho e ser para ele uma presença acalentadora, o Pastor Jesus, diante da sua morte iminente e da consequente dispersão do seu rebanho, assegura ao coração dos seus discípulos que é preciso crer para atravessar os vales tenebrosos da dúvida e do medo: “Não se perturbe o vosso coração! Credes em Deus, crede também em mim” (Jo 14,1).

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Os pastores para testemunhar que tinham feito de tudo para livrar a sua ovelha do perigo deveriam “salvar da boca do leão duas patas ou um pedaço da orelha” (Am 3,12; Gn 31,39), sinal de que tinham lutado contra as feras, apesar de não ter conseguido salvar a ovelha; desta forma, se isentavam da obrigação de ressarcir ao dono do rebanho, a ovelha que fora morta (Ex 22,12). O Pastor Jesus não se contenta apenas em apresentar ao dono do rebanho partes de ovelhas dilaceradas pelo inimigo, mas tendo dado a sua vida, mostra os sinais de seu combate vitorioso: “mãos perfuradas e lado traspassado” (Jo 20,20), a grande prova de que o inimigo foi destruído e as ovelhas do seu rebanho salvas. Nem a morte pode arrebatar as ovelhas das mãos de Jesus, pois ele já as tinha entregue nas mãos do Pai: “Eram teus e os deste a mim… E tudo o que é meu é teu… a fim de que todos sejam um. Como tu, Pai, estás em mim e eu em ti, que eles estejam em nós, para que o mundo creia que tu me enviaste” (Jo 17,6.10.21).

Colocar-se diante da figura de Cristo Bom Pastor é reconhecer a nossa vocação fundamental: estar nas mãos do Pai para aprender a crer na vida que se torna eterna à medida que se entrega: “Se o grão de trigo que cai na terra não morrer, permanecerá só; mas se morrer, produzirá muito fruto… Se alguém quer me servir, siga-me” (Jo 12,25-26). Vocacionados a seguir o Bom Pastor que deu a sua vida, somos chamados ao serviço. O seu rebanho é de servidores da vida; esta é a maior prova de que são seus autênticos seguidores, pois escutam a sua voz e não se deixam arrebatar das suas mãos.

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Padre Andre

Pe. André Vital Félix da Silva, SCJ. Mestre em Teologia Bíblica pela Pontifícia Universidade Gregoriana. Professor nos Seminários de Campina Grande-PB, Caruaru-PE e João Pessoa-PB. Membro da Comissão Teológica Dehoniana Continental – América Latina (CTDC-AL).

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