BRE: Reflexão II Domingo do Tempo Comum – “Jo 2,1-11: Um matrimônio consumado na cruz”

matrimonio1

Por: Pe. André Vital Félix da Silva, SCJ

Texto também disponível em: dehonianosbre.org

São João Paulo II, ao inserir os Mistérios da Luz na oração do Rosário, chamou-nos atenção para alguns acontecimentos basilares da vida pública de Jesus que possuem um caráter particular de revelação do seu Mistério: “Cada um destes mistérios é revelação do Reino divino já personificado no mesmo Jesus. Primeiramente é mistério de luz o Batismo no Jordão. Aqui, enquanto Cristo desce à água do rio, como inocente que Se faz pecado por nós (cf. 2Cor 5,21), o céu abre-se e a voz do Pai proclama-O Filho dileto (cf. Mt 3,17 par), ao mesmo tempo que o Espírito vem sobre Ele para investi-Lo na missão que O espera. Mistério de luz é o início dos sinais em Caná (cf. Jo 2,1-12), quando Cristo, transformando a água em vinho, abre à fé o coração dos discípulos…” (Carta Apostólica ROSARIUM VIRGINIS MARIAE, 21).

Numa perspectiva semelhante, a liturgia do Tempo Comum (C) se abre justamente, após a celebração do Batismo do Senhor (1º Mistério da Luz), com a proclamação do Evangelho das Bodas de Caná (2º Mistério da Luz), que no pensamento teológico do evangelista São João é uma chave de leitura de todo o seu evangelho.

Evocando dois temas fundamentais, isto é, a Criação e a Aliança, o Sinal das Bodas de Caná é apresentado como fundamento (grego: arché, princípio), a partir do qual todo o IV Evangelho se desenvolve. Em Jesus, toda a criação se renova: “Pois tudo foi feito por meio dele…” (1,3), é Ele quem estabelece a nova e eterna aliança cuja consequência é a paz, fruto da sua paixão, morte e ressurreição: “Pondo-se no meio deles, disse-lhes: ‘A paz esteja convoco’” (20,19).

Para além do aspecto histórico do acontecimento de Caná, interessa ao Evangelista e, naturalmente a nós hoje, a mensagem subjacente à narração: Jesus, com a sua morte e ressurreição, é o verdadeiro esposo que dá a vida pela sua amada. Portanto, nas Bodas de Caná se anunciam as núpcias que se realizarão na cruz. Algumas evidências literárias e temáticas confirmam a relação estreita que existe entre Caná e Calvário.

bodas2

No terceiro dia”, expressão que nos remete automaticamente ao dia da ressurreição de Jesus. Evidentemente falar de ressurreição implica uma referência à sua morte que aconteceu três dias antes. Portanto, o evangelista nos dá o enquadramento de ambos acontecimentos. Em Caná, portanto, se anuncia a morte de Jesus: “a minha hora ainda não chegou”, no calvário cumpre-se o que fora anunciado: “sabendo Jesus que chegara a sua hora de passar deste mundo para o Pai” (13,1). E, desta forma, pode afirmar: “Tudo está consumado” (19,30).

“Caná”, mais do que uma referência topográfica, significativo é o valor simbólico evocado pela raiz semântica do termo, pois aponta para o aspecto salvífico da morte de Cristo. Caná vem do verbo hebraico qanah que significar “adquirir”. Este verbo é utilizado muitas vezes na Sagrada Escritura para indicar a intervenção de Deus para libertar, salvar, reconquistar, resgatar o seu povo (Dt 32,6; Sl 78,54). Por isso, quando as autoridades judaicas estão tramando a morte de Jesus, o Sumo Sacerdote profetiza que Ele “morreria pela nação…mas também para congregar na unidade todos os filhos de Deus dispersos” (11,51-52). A morte de Jesus é vista como o alto preço pago para nos adquirir: “Alguém pagou alto preço pelo vosso resgate” (1Cor 6,20).

Houve Bodas”: sem dúvida, a alegoria do matrimônio, já bem conhecida sobretudo pelos profetas do Antigo Testamento, contextualiza de forma clara o significado da missão de Jesus. Ele é o noivo da nova e eterna aliança desejada por Deus desde sempre. João Batista, mais adiante, confirmará: “Quem tem a esposa é o esposo… Que ele cresça e eu diminua” (3,29-30), eis a razão para a plena alegria do precursor. Contudo, o anúncio deste matrimônio é marcado por uma tensão. A presença de Jesus naquela festa denuncia que a antiga aliança faliu, prova disso é a falta de vinho, símbolo da alegria (cf. Sl 104,15). O jugo escravizador das instituições, a impotência do rigorismo legal e a superficialidade das práticas religiosas (purificação dos judeus) tornaram a aliança do Antigo Testamento um peso insuportável (talhas de pedra), relacionamento desprovido de sentido de vida (vazias), e incapaz de salvar (6: número imperfeito).

vinho3

O primeiro passo para a transformação dessa relação estéril entre o Povo e Deus, a fim de que a sua nova e definitiva aliança se estabeleça, é a obediência à sua Palavra: “Fazei tudo o que ele vos disser”. Consequentemente, a alegria será abundante e permanente: “Se permanecerdes em mim, e minhas palavras em vós… Eu vos digo isso para que a minha alegria esteja em vós e vossa alegria seja plena” (15,7.11). Porém, esta verdadeira alegria será oferecida apenas na cruz, com a morte do noivo, prova suprema do seu amor misericordioso, que apesar de receber e beber o vinho podre (“Fixando uma esponja embebida de vinagre, levaram-na à sua boca” 19,29), não desiste de oferecer sempre o vinho superior (“transpassando-lhe o lado com a lança, imediatamente saiu sangue e água” 19,34) à sua esposa, a mulher do cordeiro (Ap 21,9). A celebração da eucaristia evoca o anúncio das Bodas de Caná e atualiza o Matrimônio do Calvário, renovando o constante convite: “Felizes aqueles que foram convidados para o banquete das núpcias do Cordeiro” (Ap 19,9).

cordeiro4

Padre Andre

Pe. André Vital Félix da Silva, SCJ. Mestre em Teologia Bíblica pela Pontifícia Universidade Gregoriana. Professor nos Seminários de Campina Grande-PB, Caruaru-PE e João Pessoa-PB. Membro da Comissão Teológica Dehoniana Continental – América Latina (CTDC-AL).

Esse post foi publicado em Uncategorized. Bookmark o link permanente.

4 respostas para BRE: Reflexão II Domingo do Tempo Comum – “Jo 2,1-11: Um matrimônio consumado na cruz”

  1. Salesia de Medeiros Wanderley disse:

    Que bela reflexão! Padre André desvenda cada gesto, cada palavra, dando vida e significado ao que não vem claramente explicitado no Evangelho. Uma benção de Deus é poder partilhar semanalmente de sua lições.

  2. cricidalva Gomes de Araújo disse:

    Linda reflexão , Pe André eu desconhecia todos esses simbolismos, conhecia as palavras principalmente o mistério da luz, mas não entendia o verdadeiro sentido agora está clareando o entendimento dos textos, espero que não nos abandone e continue a refletir a linguagem bíblica para nos tirar a ignorância da palavra de Jesus Cristo

  3. Itamar disse:

    A chamada da reflexão do ll domingo do tempo comum : Um matrimônio consumado na Cruz, nos lembra o casamento como um símbolo indissolúvel, assim é a aliança de Deus com o seu povo. Representa a ligação de Cristo com a sua Igreja. Cristo que é o “esposo” e a Igreja, que somos todos nós, a “esposa”. uma aliança indissolúvel.

  4. Elisalva de Fátima Madruga Dantas disse:

    Reitero todos os comentários anteriores, pois de fato esses textos de Pe. André são por demais iluminadores da Palavra Sagrada.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s