BRE: Reflexão XXXII Domingo do Tempo Comum: “As duas valiosíssimas moedinhas”

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Por: André Vital Félix da Silva, SCJ

Texto também disponível em: dehonianosbre.org  

Ao chegar a Jerusalém (Mc 11,15s), destino final do seu caminho, Jesus inicia uma série de ensinamentos sobre o Templo e tudo aquilo que a ele está relacionado (leis, ofertas, impostos, sacerdotes, doutores, etc.). Uma das primeiras denúncias que faz, ao purificar o Templo, diz respeito à deformação do seu significado religioso e função social: “A minha casa será chamada casa de oração para todos os povos. Vós, porém, fizestes dela um covil de ladrões”; provocando assim a ira dos dirigentes, sobretudo a dos sumos sacerdotes e escribas, que procurarão de agora em diante fazê-lo perecer (Mc 11,15-19).

A perícope evangélica deste XXXII Domingo do Tempo Comum conclui esta série de ensinamentos com a crítica severa de Jesus aos que promovem a verdadeira destruição do Templo (as autoridades religiosas hipócritas e seus cúmplices), e a exaltação do gesto profético da “pobre viúva que ofereceu tudo o que possuía para viver”, condição fundamental para se viver a verdadeira relação com Deus na experiência religiosa. Para compreender melhor este texto é preciso ter presente toda a seção onde ele se insere (Mc 11,1–13,37), destacando como divisor de águas a cena quando Jesus se retira do Templo e para lá não volta mais (Mc 13,1). Por conseguinte, pode-se dizer que os dois núcleos em torno dos quais se articula esta série de ensinamentos são indicados pelo “detalhe” (sentado) dado pelo próprio evangelista para sublinhar que Jesus estava ensinando, primeiramente, no Templo: “E sentado frente ao Tesouro do Templo, observava…” e, logo em seguida, já fora do Templo, “sentado no monte das Oliveiras, frente ao Templo…Começou a dizer-lhes…”. O ensinamento de Jesus, nestas ocasiões, procura evidenciar o contraste e a contradição existentes entre as pessoas e as suas respectivas atitudes e mentalidades. De um lado, Jesus e a pobre viúva, do outro, os escribas e os discípulos. Enquanto Jesus observa as pessoas nas suas atitudes interiores e motivações para daí tirar e propor lições, os escribas, por sua vez, não enxergam mais do que a si mesmos e os seus interesses, e imersos num mundanismo religioso: “gostam de circular com togas, de ser saudados nas praças públicas e de ocupar os primeiros lugares”, além do mais, os discípulos ainda se demonstram apegados à aparência das coisas: “Mestre, vê que pedras e que construções!”. Diante dessa atitude hipócrita e perigosa dos líderes religiosos, Jesus afirma que é indispensável ter cuidado com eles, e diante do encantamento superficial dos seus discípulos, o Mestre, para fazê-los sair da alienação religiosa, provoca: “Vês estas grandes construções? Não ficará pedra sobre pedra que não seja demolida”. Em confronto com a mentalidade perigosa e com as atitudes destruidoras de valores fundamentais (religião, oração, fé), tanto dos escribas quanto dos discípulos, Jesus, na sua autoridade de Mestre (sentado frente ao Tesouro, sentado no Monte das Oliveiras), anuncia a demolição dessas estruturas ideológicas, exaltando o gesto profético da pobre viúva que faz a oferta de duas pequenas moedas (equivalente a um quadrante, a menor moeda romana), isto é, tudo o que possuía para o seu sustento.

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Havia na sala do Tesouro treze caixas (gazophylakion) em forma de trombeta feitas de bronze. Dependendo da quantidade de moedas jogadas nelas se ouvia no recinto o barulho correspondente. Cada uma dessas urnas tinha uma placa indicando a finalidade da oferta. Um sacerdote, depois de receber a oferta, fazia em alta voz o anúncio do valor doado e logo em seguida jogava-se a oferta na caixa. Quanto maior a oferta, maior o barulho. Dentre essas urnas, havia uma destinada a ofertas voluntárias, geralmente destinadas à preparação dos holocaustos e, portanto, empregadas diretamente no culto, exclusivamente para Deus; eram as pequenas quantias que só juntas poderiam servir para alguma coisa.

Oferecendo as suas únicas duas moedinhas naquela caixa de ofertas genéricas, a viúva permanecia no anonimato sem nenhum anúncio por parte de um sacerdote, nem muito menos se percebia o que fizera, pois a quantidade oferecida não era suficiente para fazer retinir no interior da urna-trombeta. Porém, Jesus, o verdadeiro Mestre, Sacerdote, exalta a humildade da viúva, tornando-se seu defensor e juiz. A viúva cuja casa e bens são devorados pelos escribas hipócritas é agora reconhecida e apresentada como modelo autêntico de verdadeira atitude religiosa. Talvez a sua oferta, do ponto de vista material, escassa e sem muito valor, seja fruto da exploração dos homens oficiais da religião de aparência que, prolongando a sua falsa oração, têm tempo suficiente para devorar as casas das pobres e indefesas viúvas. Esses piedosos dissimulados instrumentalizam inescrupulosamente as coisas sagradas para manter o seu status de privilégios, regalias e posição social. Contudo, o juízo contra eles já foi emitido: “Esses receberão sentença mais severa”.

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Jesus não anuncia a demolição da religião como muitos pretensos libertários profetizaram e tentaram fazer ao impor seus sistemas totalitários. Perseguem a religião, destroem templos, matam fieis, mas não conseguem destruir a dimensão religiosa do ser humano, pois essa é irresistível uma vez que está orientada pela necessidade humana de busca de transcendência, de sentido de vida que favoreça não apenas estímulo para a superação de necessidades ou carências humanas pontuais, mas que inspire uma vivência enraizada de forma profunda no horizonte histórico, a ponto de projetar-se numa dimensão incomensurável, infinita. Jesus não desaprovou o gesto piedoso da viúva, que objetivamente se distingue dos outros ofertantes apenas no aspecto quantitativo, mas o Mestre evidencia a dimensão mais importante da prática religiosa, isto é, a motivação interior (deu tudo o que possuía), diversamente da religiosidade superficial (davam do que sobravam, grego: perisseuw: algo que é periférico, excedente).

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As duas moedinhas na urna-trombeta do Templo naquele momento não retiniram, pois não eram de grande valor e peso, mas no olhar e no coração do Mestre falaram forte e alto, e continuam, no Tesouro do Evangelho, a ressoar nos quatro quantos da Terra onde a Palavra do Mestre se faz ouvir, onde a generosidade dos mais pobres cria solidariedade e onde a união dos fracos, impulsionados pela fé, se transforma em força de mudança e implantação do Reino que não se acaba. Tal eloquente gesto deixa claro que todas as vezes que a religião se transforma em urna-trombeta para promover e apoiar grupos ideológicos, estruturas sociais e políticas e sistemas econômicos que devoram a vida, sobretudo a dos mais pobres, ela deve ser denunciada e combatida: “Não ficará pedra sobre pedra!”. Enquanto tais grupos, instituições, organizações se sustentam e se alimentam de volumosas somas de dinheiro entregues às urnas-trombetas por seus fiéis seguidores (aqueles que se pensam donos do mundo), é preciso acreditar no valor incomensurável das duas moedinhas de inúmeras viúvas espalhadas em todo o mundo, aprendendo a grande lição do que significa a verdadeira piedade e a autêntica vivência religiosa: oferecimento generoso, e não ofertas presunçosas.

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Pe. André Vital Félix da Silva, SCJ. Mestre em Teologia Bíblica pela Pontifícia Universidade Gregoriana. Professor nos Seminários de Campina Grande-PB, Caruaru-PE e João Pessoa-PB. Membro da Comissão Teológica Dehoniana Continental – América Latina (CTDC-AL).

Pe. André Vital Félix da Silva, SCJ. Mestre em Teologia Bíblica pela Pontifícia Universidade Gregoriana. Professor nos Seminários de Campina Grande-PB, Caruaru-PE e João Pessoa-PB. Membro da Comissão Teológica Dehoniana Continental – América Latina (CTDC-AL).

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Uma resposta para BRE: Reflexão XXXII Domingo do Tempo Comum: “As duas valiosíssimas moedinhas”

  1. Itamar disse:

    O desapego desta mulher mostra o desapego a que somos convidados a viver em nosso dia-a-dia. Despojar-nos do que temos em favor do outro, liberta-nos de um egoísmo doentio. Nós sempre poderemos fazer alguma coisa pelo outro.
    Que aprendamos com o exemplo desta viúva, a conjugar mais o verbo ” dar ” e menos o verbo ” ter “.
    Obrigado Pe André pelo belo texto… Parabéns!
    itamar

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