Reflexão XXVII Domingo do Tempo Comum: “A tentação da separação”

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Por: Pe. André Vital Félix da Silva, SCJ

O evangelho deste XXVII Domingo do Tempo Comum inicia denunciando a intenção dos fariseus, como afirma Marcos: “tentando-o”; quando perguntam a Jesus se “É certo (lícito, conforme a Lei) ao homem repudiar a sua mulher”. Não é a primeira vez que este grupo de opositores procura colocar Jesus à prova (do grego, peirazo: fazer cair na armadilha). Evidentemente, essa estratégia tem como finalidade arranjar motivos para acusá-lo e, consequentemente, levá-lo à morte (Mc 3,6).

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Na língua hebraica a palavra tentador, adversário, é Satanás (Satã, o acusador dos homens diante de Deus: 1Cr 21,1; Jó 1,6s; Zc 3,1; Ap 12,10), o que traduzido para o grego ficou diabo (aquele que separa). Portanto, os fariseus, tentando Jesus, assumem o papel não apenas de simples opositores, mas de verdadeiros agentes da destruição do projeto de Deus. Pois tornam-se colaboradores daquele que desde o princípio tenta separar a criação e a humanidade do seu Criador. E isto se concretiza tanto na formação de mentalidades distorcidas como na indução de atitudes permissivas. No evangelho de Marcos, além dos fariseus, também encontramos outros personagens, por exemplo Pedro (8,33), que desempenham este papel de separar Jesus de sua missão, de induzir à mentira, ao erro, tentando convencer que a verdade é mentira e vice-versa. Astúcia tão antiga quanto nova!

Os evangelhos sinóticos, logo após a narração do Batismo de Jesus, apresentam a famosa cena da Tentação no Deserto (Mt 4,13-17; Mc 1,12-13; Lc 3,21-27). Em síntese, as investidas do Satã têm como objetivo provocar uma separação entre Jesus (Filho de Deus) e a sua missão (Messias sofredor). Partem sempre de uma afirmação verdadeira: “Se és Filho de Deus”, mas exigindo como comprovação desta verdade uma mentira que a contradiz e destrói: “Transformar pedra em pão”, “Atirar-se no precipício”, “Prostrar-se diante do tentador para adorá-lo”. O Tentador quer a todo custo que Jesus se torne um adversário ao projeto do Pai. E começa propondo que o Filho de Deus destrua o que o Pai criou, isto é, que Jesus transforme o seu poder em força mágica e arbitrária, e mude a própria natureza das coisas criadas para o seu benefício próprio (transformar pedra em pão diante da fome). Derrotado pela obediência de Jesus à Palavra do Pai, Satã prossegue a sua investida apelando para uma leitura fundamentalista das Sagradas Escrituras, a fim de que Jesus, aderindo a esta sua leitura, destrua a Palavra do Pai. E, por fim, faz a sua mais sedutora e atraente proposta: “Tudo isto te darei”. Mas com o altíssimo preço: a destruição da filiação divina. Prostrando-se diante do adversário, Jesus reconhecê-lo-á, de agora em diante, o seu deus, por conseguinte, o seu pai. Assim, o projeto de destruição estaria garantido, pois teria a ajuda de um magnífico e potente colaborador: o Filho, adversário do Pai. Reino dividido, destruição garantida.

Contudo, a fidelidade ao Pai, ao seu plano e desígnio eternos, derrotou o tentador. Por outro lado, mesmo derrotado, ele não desistiu, continuou tentando o Filho de Deus durante toda a sua vida, até a sua derrota final na cruz.

Marcos nos apresenta dois fatos bem ilustrativosdivorcio dessas tentativas tentadoras cujos protagonistas são os fariseus: uma diz respeito à tentativa de destruição da criação, cujo auge se deu na Encarnação, quando exigiram um sinal vindo do céu, pois rejeitavam o grande sinal vindo do céu que era o próprio Jesus (8,11). Portanto, se tivessem conseguido, teriam destruído o projeto eterno do Pai realizado agora no envio do seu Filho. Jesus se recusa a obedecê-los. A outra ocasião é justamente a tentativa de exigir de Jesus um posicionamento que destrua a Palavra primordial do Pai, que “desde o princípio da criação os fez homem e mulher. Por isso o homem deixará o seu pai e sua mãe e os dois serão uma só carne… Portanto, o que Deus uniu, o homem não separe”.

Sabemos que a união matrimonial tem a sua principal base não apenas no aspecto jurídico-canônico, ainda que este seja importante, pois garante e defende a realidade objetiva da união. Mas o fundamento da indissolubilidade reside na Revelação de Deus que conhecemos pela Escritura e está inscrito na própria natureza humana. A institucionalização da tentação da separação não é simplesmente uma tentativa de solucionar casos insustentáveis, mas uma investida sutil para destruir o plano do Criador: “Com essa atitude, o homem comete um novo pecado, aquele pecado contra Deus Criador… Deus colocou o homem e a mulher no topo da criação e confiou a eles a terra… O projeto do Criador está escrito na natureza” (Papa Francisco).

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O vínculo matrimonial, quando autêntico e real, não depende das comodidades individuais nem muito menos dos humores e sensações do momento. O ser humano cresce à medida que assume a sua vida com liberdade e responsabilidade, e por isso, precisa empenhar-se com todas as forças para restaurar as relações, assumidas livremente, e não destruí-las quando se tornam frágeis. Distorcer os princípios para acomodar-se aos defeitos de percurso é um lento e eficaz processo de destruição de valores fundamentais para a vida do ser humano em sociedade.

ideologia1Como fizeram os adversários de Jesus de ontem, hoje também se verificam investidas semelhantes para separar o que Deus uniu. Um exemplo claríssimo é a tão difundida ideologia de gênero. Uma falácia perigosa que está sendo aceita como verdade por muitas pessoas, inclusive por quem diz ser cristão. Mas rejeitando o que era desde o começo, coloca-se como verdadeiro adversário e, portanto, separando o que Deus uniu, colabora com a sua destruição. O Papa Francisco afirma: “A ideologia de gênero é um erro da mente humana que provoca muita confusão… Portanto, a família está sendo atacada”. A tentativa de destruir a Criação, negando a verdade da natureza, e a distorção da Palavra de Deus para garantir situações aparentemente mais cômodas são dois grandes atentados à vida do ser humano, a começar pelos próprios filhos, que constituem a grande bênção do matrimônio: “O Senhor abençoa os pais nos filhos” (Sl 127). Por esta razão, Jesus conclui o seu ensinamento sobre o que Deus uniu abençoando os frutos dessa união: as crianças trazidas a Ele.

casamento

Pe. André Vital Félix da Silva, SCJ. Mestre em Teologia Bíblica pela Pontifícia Universidade Gregoriana. Professor nos Seminários de Campina Grande-PB, Caruaru-PE e João Pessoa-PB. Membro da Comissão Teológica Dehoniana Continental – América Latina (CTDC-AL).

Pe. André Vital Félix da Silva, SCJ. Mestre em Teologia Bíblica pela Pontifícia Universidade Gregoriana. Professor nos Seminários de Campina Grande-PB, Caruaru-PE e João Pessoa-PB. Membro da Comissão Teológica Dehoniana Continental – América Latina (CTDC-AL).

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Uma resposta para Reflexão XXVII Domingo do Tempo Comum: “A tentação da separação”

  1. Itamar disse:

    O divórcio deveria-se chamar “diabo” ( aquele que separa ) já que divórcio significa (separação).
    A expressão divortium aquarum ( separação das águas ) mostra bem a figura do divórcio. Pois é quando um rio se bifurca, ou seja divide-se em dois, nos quais vão se separando pouco a pouco, tomando, cada vez mais direções opostas. É muito triste a figura do divórcio.

    Que o casamento seja uma aliança eterna, como o ouro que não pode ser consumido e como o círculo que não tem fim. Porque jamais se disse ou se dirá coisa mais bonita sobre ” a vida a dois” do que esse trecho : ” Por isso o homem deixará seu pai e sua mãe e se unirá à sua mulher e os dois serão uma só carne… Portanto, o que Deus uniu, o homem não separe.”

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