Reflexão XIX Domingo Comum: “Pão descido do céu?”

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Por: Pe. André Vital Félix da Silva, SCJ

“Eu sou o pão descido do céu” (Jo 6,41). Indubitavelmente, de todas as afirmações de Jesus sobre si mesmo, esta é a mais chocante e incompreensível. Comprova-o a reação dos seus interlocutores diante da dureza do realismo da afirmação. Atônitos por falta de argumentação lógica, racional e empírica, chegam a se escandalizar e até mesmo alguns dos seus discípulos tomam a drástica decisão de abandoná-lo (6,66).

Toda tentativa de querer considerar esta afirmação como simples metáfora, linguagem simbólica ou mesmo como mais uma comparação ilustrativa usada por Jesus para fazer-se compreender, é inconsistente. Basta apenas um rápido confronto com as demais comparações feitas por Jesus para falar de sua missão e acenar para o mistério da sua pessoa que salta aos olhos a inconfundível peculiaridade dessa afirmação: “Eu sou o pão descido do céu”. Situando-as em seus respectivos contextos literários e, por sua vez, tais contextos naturalmente relacionados a contextos históricos, nenhuma das alegorias ou comparações que Jesus utilizou provocou tanta incompreensão, ódio, e discernimento. Quando Jesus proclamou-se: “Eu sou a luz do mundo”, “Eu sou a porta”, “Eu sou o bom pastor”, “Eu sou a ressurreição e a vida”, “Eu sou o caminho, a verdade e a vida”, “Eu sou a videira” (8,12;9,5;12,46/ 10,7.11/ 11,25/14,6/15,1); não encontramos nenhuma reação tão
forte quanto aquela depois de afirmar ser “o pão descido do céu”.

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O discurso vai se recrudescendo à medida que Jesus insiste em reafirmar isso. Em todo o capítulo 6 a expressão “pão” com essa qualificação aparece, implícita ou explicitamente, relacionada a Jesus em torno de 15 vezes (27.32.33.34.35.41.48.50.51.58).

A Igreja ao longo dos séculos viveu os seus maiores momentos de tensão, não quando foi perseguida, mas quando teve de reafirmar a sua fé na Eucaristia. As grandes tentativas de busca de compreensão e vivência da Eucaristia, sejam no primeiro milênio, de perspectiva mais mistagógica, como as do segundo, mais teológicas, escolásticas, nunca deslocaram-na do seu centro e essencial: o mistério pascal. As tendências extremistas de racionalização e esvaziamento do mistério que buscam tornar o “pão descido do céu” algo que cabe nas nossas lógicas humanas, sempre provocaram grandes divisões e cismas. A visão horizontalista da Eucaristia, concebendo-a apenas como um repartir um pão, na alegria e contentamento, para garantir uma comunhão entre parterns, fere essencialmente a sua qualificação essencial de ser pão “descido do céu”.

Jesus não veio fazer discursos ilustrativos ou exemplares para serem compreendidos e, por conseguinte, aceitos, mas com a sua encarnação, assumiu a nossa carne para tornar-se o seu alimento. E, portanto, tomou de nós carne para dá-la a nós. Como fez com os cinco pães e dois peixinhos, que segundo a lógica humana eram insuficientes para alimentar aquela multidão; depois de tê-los tomado, “eucaristizados-os”, entregou-lhes e todos ficaram saciados. Portanto, o mistério do pão descido do céu é iniciado com a encarnação. Como nos daria a sua carne se não tivesse assumido a nossa?

Não é por nada que a inspiração do Pio Pelicano na iconografia cristã dos primeiros tempos fala muito mais do que todos os tratados sobre a eucaristia elaborados até hoje.

“As fêmeas alimentam os filhotes despejando as reservas acumuladas. Para esvaziá-las, comprime o peito com o bico, fato este, que deu origem a antiga lenda, onde o pelicano abre o próprio peito para dele extrair sua carne a fim de alimentar os filhotes quando não encontra alimento”.

Little Baby Pelicans

Abrindo o seu peito na cruz, de onde saiu sangue e água, símbolo do batismo e da Eucaristia, tornou-se não um Pelicano lendário, mas uma verdadeira fonte de vida. Eucaristia não é para se compreender, mas para nos nutrir. Jesus não nos deu uma receita para prepararmos um alimento, mas fez-se alimento diante da urgência da nossa fome. É verdadeiro Verbo feito carne, pão descido do céu, no seio de Maria, que continua a descer no seio da Igreja para fazer-se nosso alimento.

A Igreja vive da Eucaristia! Portanto, não basta apenas querer pensá-la ou compreendê-la. Para ter vida nela, é preciso continuar no tempo e na história a repetir perenemente, como um bebê faminto que chora para sugar o peito de sua mãe ainda que não compreenda o que está fazendo: “Senhor, dá-nos sempre deste pão!”.

Pe. André Vital Félix da Silva, SCJ. Mestre em Teologia Bíblica pela Pontifícia Universidade Gregoriana. Professor nos Seminários de Campina Grande-PB, Caruaru-PE e João Pessoa-PB. Membro da Comissão Teológica Dehoniana Continental – América Latina (CTDC-AL).

Pe. André Vital Félix da Silva, SCJ. Mestre em Teologia Bíblica pela Pontifícia Universidade Gregoriana. Professor nos Seminários de Campina Grande-PB, Caruaru-PE e João Pessoa-PB. Membro da Comissão Teológica Dehoniana Continental – América Latina (CTDC-AL).

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3 respostas para Reflexão XIX Domingo Comum: “Pão descido do céu?”

  1. Luciano Freitas disse:

    Pe. Andre … fui seu aluno em João Pessoa. Tenho acompanhado suas reflexões aqui e me nutrido delas. Obrigado! Saudações! Um abraço!

  2. Elisalva de Fátima Madruga Dantas disse:

    Como sempre um texto bastante iluminador acerca das palavras bíblicas!

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