Reflexão XVIII Domingo Comum: “Maná: o que é isto?”

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Por: Pe. André Vital Félix da Silva, SCJ

Aparentemente o ciclo litúrgico do ano B (evangelho de Marcos) foi interrompido inesperadamente pela leitura continuada do capítulo 6º de João, que tendo se iniciado no 17º Domingo do Tempo Comum se estenderá até o 21º Domingo. É claro que a dinâmica da liturgia não nos permite fazer parêntesis ao longo do caminho, pois esta é muito coerente e fiel aos seus escopos inspirados pelo mistério e comprovados pela sua prática sadia e salutar, isenta de modismos e criatividades desprovidas de significado transcendente e comprometedor. A liturgia é um dom, não uma invenção puramente criativa.

Se o Ano A (Mateus) nos introduz no mistério do Cristo-fundamento da eclesiologia, que por sua vez, apresenta a Igreja qual verdadeiro Israel, o ano B (Marcos) sublinha a cristologia sob o caráter messiânico de Jesus e daquilo que Ele veio anunciar e implantar: o Reino de Deus. Crescendo na perspectiva da Revelação do Filho de Deus, Marcos na metade do caminho coloca a multiplicação dos pães como momento decisivo para iniciar o discernimento de quem é verdadeiramente esse Jesus, homem-messias. A liturgia, diante desse desafio, prolonga esta meditação com a ajuda da narrativa de João sobre a multiplicação dos pães, pois o faz de modo magistral com o discurso subsequente cujoQuem__Fotor tema se inspira no sinal mas se completa nas palavras de revelação do próprio Jesus através do discurso do pão que não perece, e que se encontra apenas na tradição do IV evangelho.

Na perícope deste XVIII domingo confirma-se a cegueira do povo que, mesmo tendo visto o sinal da multiplicação dos pães e peixes, continua a exigir de Jesus um sinal para que creia: “Que sinal realizas para que vejamos e creiamos em ti? Que obras fazes?” (6,30). Portanto, “ver sinais para crer não é suficiente”.

A incoerência desse pedido se confirma com o mesmo argumento utilizado para exigir de Jesus um sinal: “Nossos pais comeram o maná no deserto…”. Ironia descabida! Acabavam de comer pão em abundância num deserto transformado em jardim (“Havia muita grama ali” 6,10), agora não mais como escravos fugitivos que não podiam parar na estrada com calma, pois poderiam ser alcançados pelo faraó, mas conduzidos por Jesus como pessoas livres que podiam se sentar e comer com tranquilidade: “Sentaram-se pois…” (6,10). Injustamente exigiam o que já lhes fora dado.

Consolida-se, assim, o grande perigo de exigir sinais, quando não se tem a capacidade de perscrutar no horizonte da existência os grandes e grandiosos sinais que já cintilam diante de nós. Destarte, cometemos a maior das injustiças para com Aquele que tudo nos tem dado. Desprezamos as grandes obras do Senhor, porque se apresentam no ordinário do cotidiano, mesmo sem deixarem de ser extraordinárias. Pois tal qualificação não se dá pela aparência, mas pelo seu alcance.

O povo diante do sinal realizado por Jesus, exige outro sinal, pois aquele que fizera não foi considerado uma grande coisa. A pergunta de André que levara até Jesus um menino com cinco pães de cevada e dois peixinhos secos antecipa o desdém orgulhoso do povo: “Mas o que é isto?” (6,9). Pergunta idêntica quando o povo no deserto murmurava enquanto peregrinava em busca da liberdade, ameaçada diante das primeiras dificuldades. Ao ver cair o pão do céu, os israelitas exclamavam: “Que é isto?” (Ex 16,15). Maná não é uma coisa, mas uma pergunta em hebraico: Man hû. Pergunta que eles mesmos responderam, pois chegaram ao cúmulo de chamá-lo de “alimento de penúria” (Nm 21,5). Sem contar que se deixaram levar pela avareza de acumulá-lo desobedecendo a ordem de Moisés (Ex 16,19-20). Pergunta presunçosa, resposta insensata. Pois só o verdadeiro pão descido do céu pode ser a resposta: “Isto é o meu corpo (Mc 14,22).

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Muitas vezes assim também se comporta o coração humano diante de respostas que Deus nos dá, antes mesmo que lhas façamos. É a ingratidão, cegueira do coração e perda de memória histórica, que diante do bem recebido transforma o dom em exigência, generosidade em cálculos, dádiva em mercadoria.

Pe. André Vital Félix da Silva, SCJ. Mestre em Teologia Bíblica pela Pontifícia Universidade Gregoriana. Professor nos Seminários de Campina Grande-PB, Caruaru-PE e João Pessoa-PB. Membro da Comissão Teológica Dehoniana Continental – América Latina (CTDC-AL).

Pe. André Vital Félix da Silva, SCJ. Mestre em Teologia Bíblica pela Pontifícia Universidade Gregoriana. Professor nos Seminários de Campina Grande-PB, Caruaru-PE e João Pessoa-PB. Membro da Comissão Teológica Dehoniana Continental – América Latina (CTDC-AL).

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5 respostas para Reflexão XVIII Domingo Comum: “Maná: o que é isto?”

  1. Alaelson disse:

    Parabéns ao Pe. André, meu professor. Felicidades.

  2. Elisalva de Fátima Madruga Dantas disse:

    Prezado Pe. André,
    Como sempre, um texto muito elucidativo e muito bom para refletirmos sobre a presença de Deus em nossas vidas, sobretudo, naqueles momentos em que nos sentimos tão desamparados, em que de repente bate aquela dúvida sobre a existência de Deus e queremos tanto ter um sinal mais concreto, quando, na verdade, os sinais, conforme o senhor mesmo coloca estão aí no nosso cotidiano e não enxergamos. Obrigada Pe. André!
    Elisalva

  3. Itamar disse:

    Quantas vezes fazemos esta pergunta: Senhor pq me abandonaste? e a pergunta certa seria: Senhor pq mim afastei de ti? Deus não nos abandona, nós é que nos afastamos dele. Sempre procurando por sinais extraordinários. E nem nos damos conta que o maior sinal da presença de Deus acontece todos as dias ” O milagre da vida “

  4. Pedra Leme disse:

    Obrigada Pe André! Já me cadastrei e estou te seguindo…
    Abraço! Ir. Pêdra

  5. Ivanúzia disse:

    É verdade Pe. André os sinais milagrosos que Deus faz em nossas vidas são a cada momento, e as vezes duvidamos, exigimos e não agradecemos.
    Obrigada amigão pela luz que és.
    Ivanúzia

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