Reflexão XVII Domingo Comum: “Ver sinais para crer não é suficiente”

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Por: Pe. André Vital Félix da Silva, SCJ

O Evangelista João introduz a sua narração da multiplicação dos pães e dos peixes, diferentemente dos sinóticos, fazendo duas referências importantíssimas para podermos compreender, de um modo mais profundo e comprometido, esse fato extraordinário, registrado nos quatro evangelhos. Para João, esse acontecimento não é chamado milagre, mas sinal e se dá num momento chave para a sua compreensão: “Estava próxima a festa da Páscoa…”(6,4).

É interessante notar que para os sinóticosel_banquete_de_herod_la_danza_de_salome_filippo_tarjeta_postal-rb937b9aff7de4045bf30444d4220322b_vgbaq_8byvr_1024_Fotor, segundo a perspectiva teológica de cada um, a multiplicação dos pães é colocada logo depois do anúncio da morte de João Batista, decidida e executada num contexto de banquete festivo, por ocasião do aniversário de Herodes. Poderíamos reconhecer, entre outras coisas, a contraposição insinuada pelos sinóticos colocando em confronto o banquete de morte promovido pelo rei Herodes para um grupo muito seleto e restrito, isto é, seus magnatas, oficiais e grandes personalidades da Galileia, e o banquete de vida oferecido por Jesus de modo abundante e irrestrito, onde todos se saciam e ainda sobram doze cestos.

Enquanto os sinóticos sublinham a motivação das multidões que procuram Jesus e os discípulos por causa do sucesso missionário deles, que há pouco voltavam da missão, e que até mesmo entusiasmados prestavam contas a Jesus, o IV evangelho ressalta que as multidões buscavam e seguiam a Jesus porque tinham visto os sinais que ele operava nos doentes.

A motivação é clara: “Viam os sinais”. Contudo, é o próprio Jesus que logo em seguida denuncia a visão superficial da multidão que, por sua vez, não consegue enxergar mais do que aparência daquilo que ele realiza: “Em verdade, em verdade vos digo: vós me procurais, não por terdes visto sinais, mas porque comestes pão e vos saciastes...” (6,26). Até mesmo quando pareceriam acreditar por causa dos sinais, Jesus declara não confiar neles: “… Muitos creram vendo os sinais que ele realizava. Mas Jesus não tinha confiança neles, porque os conhecia a todos…” (2,23-25).

Ficar apenas na busca de sinais extraordinários, inclusive dependendo deles para crer, é um grande engano para quem quer ser discípulo de Cristo. Pois não será capaz de reconhecer o grandioso sinal que Ele mesmo é para a humanidade. Sinal que aponta a verdadeira vida, sinal que tira a ambiguidade da visão confusa que temos da realidade hoje, sinal que indica o verdadeiro sentido da vida, quando se afirma com muita insistência nos nossos dias que a única verdade é que não existe nenhuma verdade.

egoista_FotorHoje há muitas multidões em busca de sinais. O grande investimento do mercado religioso do nosso tempo é justamente atrair multidões com promessas de muitos sinais e prodígios, milagres, curas, garantia de prosperidades etc. Não faltam propagandas de todos os gostos para atrair multidões com suas sacolinhas para receber o pão, na ilusão de que serão saciadas plenamente. Mas nenhum compromisso de seguimento até a cruz, nenhum desafio para transformar o mundo e anunciar a verdade que liberta; egoísmo, individualismo não podem ser denunciados nessas investidas, pois são os pressupostos para que as tais propagandas sejam eficientes.

O sinal da multiplicação dos pães e dos peixes não foi campanha para garantir a aclamação que o levasse ao poder: “Vendo o sinal, exclamavam… Mas Jesus sabendo que viriam buscá-lo para fazê-lo rei, escapou e ficou sozinho...” (6,15). Era verdadeiramente um sinal, isto é, apontava para algo além do seu aspecto material, momentâneo, preanunciava a entrega Daquele que o realizava. Era o ensaio do banquete, a Eucaristia, que alcançaria a sua realização máxima na cruz, o sinal por excelência que precisa ser visto para crer: “… Saiu sangue e água. Aquele que viu dá testemunho e seu testemunho é verdadeiro… para que creiais…” (19,34-36).

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O sinal da multiplicação dos pães não pode ser visto, de modo racionalista, como uma simples técnica de partilha para que todos tenham o necessário, fruto de uma compensação horizontal, onde Jesus seria apenas uma espécie de escoteiro responsável pela organização do piquenique. Por outro lado, a visão mágica da multiplicação como efeito da varinha de condão, negaria o princípio da encarnação do Verbo que assumiu em tudo a nossa condição. Para além de qualquer hermenêutica reducionista, é preciso reconhecer o mistério que envolve o sinal, pois isto é condição para alcançar o seu objetivo: crer e ter a vida: “Muitos outros sinais fez Jesus… Estes foram escritos para crerdes, que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, e para que, crendo, tenhais a vida eterna em seu nome” (20,30-31).

Pe. André Vital Félix da Silva, SCJ. Mestre em Teologia Bíblica pela Pontifícia Universidade Gregoriana. Professor nos Seminários de Campina Grande-PB, Caruaru-PE e João Pessoa-PB. Membro da Comissão Teológica Dehoniana Continental – América Latina (CTDC-AL).

Pe. André Vital Félix da Silva, SCJ. Mestre em Teologia Bíblica pela Pontifícia Universidade Gregoriana. Professor nos Seminários de Campina Grande-PB, Caruaru-PE e João Pessoa-PB. Membro da Comissão Teológica Dehoniana Continental – América Latina (CTDC-AL).

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4 respostas para Reflexão XVII Domingo Comum: “Ver sinais para crer não é suficiente”

  1. Elisalva de Fátima Madruga Dantas disse:

    Obrigada Pe. André por seu texto, sempre iluminando com sabedoria a Palavra Divina. Gostei muito da relação estabelecida do banquete de morte de Herodes e do banquete da vida de Jesus. Que Ele nos dê cada dia mais sabedoria, para compreender Seus sinais e segui-lo, enquanto Caminho, Verdade e Vida.
    Elisalva

  2. Pé. Ruan Peron disse:

    Parabéns! Pe. André. Gostei muito da reflexa. ..ótima como sempre. Espero recebê-la toda semana. Abraço

  3. João Paulo disse:

    Padre boa reflexão nos ajuda a aprofundar na santa palavra.

  4. Caro Professor, que bom receber uma reflexão sua; nos envie pois, outras para que possamos nos preparar sempre a meditarmos a Palavra de Deus. Abraços!

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