“Eu sou a videira, a verdadeira” (Jo 15,1)

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Por: Pe. André Vital Félix da Silva, SCJ

Conservamos o destaque do adjetivo “verdadeira” para traduzir literalmente como está dito no texto grego. É claro que não é só uma questão de tradução, mas este modo de dizer nos ajuda a entender que Jesus além de aplicar a si esta metáfora, deixa subentendido que há outras videiras que não são verdadeiras. Em poucas palavras, afirmar verdadeira não significa, de per si, existente, mas verdadeira é aquela videira que produz bons frutos. Portanto, verdadeira é o que produz vida. Por conseguinte, não basta apenas existir para ser verdadeira, é preciso produzir.

arvore-e-rioA utilização metafórica de plantas, árvores, não é uma coisa rara na Bíblia. Por isso, não podemos pensar que Jesus foi o primeiro a fazê-lo. No Antigo Testamento, o povo é muitas vezes comparado a diversas árvores típicas do mundo circunstante. Imagens positivas como: “A vinha do Senhor dos Exércitos é a casa de Israel” (Is 5,7); “Israel era uma vinha exuberante, que dava frutos” (Os 10,1); mas também a metáfora pode servir de crítica: “E os farei semelhantes a figos podres que não podem ser comidos, de tão ruins que são” (Jr 29,17). Além disso, o próprio ser humano é comparado a uma árvore: “Ele (o justo) é como uma árvore plantada junto ao ribeiro, dá fruto no tempo devido…” (Sl 1,3). Muito significativa é a fábula de Joatão (Jz 9,7-15), onde as diversas árvores, representando vários tipos de pessoas, são convocadas para dentre elas uma se tornar o rei. Esta fábula é aplicada à história de Jerobaal e Abimelec.

No Novo Testamento encontramos, também, Jesus ilustrando seus ensinamentos com essa metáfora (figueira: Mt 24,32; Lc 13,6-9; 21,29). Judas na sua carta (v. 12) compara os infiéis infiltrados na comunidade cristã a “árvores que no fim do outono não dão fruto…”

DSC00326_rvore_frondosa_153301201534Sem sombra de dúvida, em linguagem metafórica, não existe uma imagem bem mais eloquente e ricamente complexa para falar do ser humano do que a árvore. Assim como o homem tem seus pés na terra, onde encontra a firmeza para se manter, equilibrar-se, assim também a árvore lança suas raízes na terra para poder crescer. Quanto mais profundas as raízes, mais força de sustentação terá para suportar as intempéries do ambiente. Uma pessoa que tem uma existência superficial não resistirá 581492_10151595765082642_1357289914_n_Fotordiante das vicissitudes da vida, desabará com muita facilidade diante de situações exigentes e desafiadoras. Apesar de ter os pés na terra por necessidade vital, o ser humano ergue-se projetando-se para o alto, assim também a árvore que se desenvolve alcançando as alturas. Com destinos semelhantes, tanto o ser humano como a árvore se perpetuam dando frutos.

Para além da complexidade e abundante referência a árvores que encontramos na Tradição Bíblica (cerca de 30 espécies de árvores são citadas na Bíblia), existe uma fundamental para compreender a afirmação de Jesus, ou seja, a árvore da vida. É um símbolo da imortalidade, prerrogativa dos deuses e busca perene do ser humano. Não é por acaso que este símbolo está presente em muitas culturas e narrações mitológicas; é incontestavelmente uma imagem arquetípica. Podemos dizer que é uma imagem que emoldura toda a Escritura, pois está no paraíso (Gn 2,9) e na Jerusalém messiânica do Apocalipse (22,2).

Quando o Senhor Deus expulsou os nossos primeiros pais do paraíso, por terem desobedecido a sua ordem de não comer do fruto do conhecimento do bem e do mal e temendo que agora também se apoderassem da árvore da vida, tornando-se imortais, colocou querubins guardando o caminho da árvore da vida. Porém, se Deus criou o ser humano e o colocou no meio do jardim, o seu lugar é o paraíso. Por conseguinte, fora dele, nunca se realizará, padecerá de uma saudade angustiante. Por isso encontramos na Sagrada Escritura esse desejo constante de procurar descobrir qual o caminho que conduz à árvore da vida. No Antigo Testamento, a Torah era vista como o mapa para trilhar o caminho da vida. Mas essa se demonstrou insuficiente, pois no máximo levou o povo a tomar consciência do pecado, isto é, do motivo de ter saído do paraíso, mas não tinha força de reconduzi-lo para lá (Rm 7,7s).

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Antes de Jesus afirmar ser a árvore da vida (videira verdadeira) ele declarou ser o caminho que conduz ao Pai (Jo 14,6). Portanto, não se pode compreender o capítulo da videira, a verdadeira, se não considerarmos Jo 14 onde Jesus afirma ser este caminho que conduz ao paraíso, logo à verdadeira vida cuja fonte é o próprio Deus, dito aqui o agricultor. Porém, o Mestre lança um desafio para os seus discípulos, aos quais chama de ramos com a missão decisiva de produzir frutos para garantir que estão verdadeiramente ligados ao tronco. Os frutos que devem produzir: consolidarem-se como discípulos de Jesus (v. 8), observarem os seus preceitos (v. 10), comprometerem-se com o amor fraterno (v. 12) e, por fim, assumirem a missão apostólica (v. 16). Galhos que não produzem frutos, secam. Discípulos que não estão unidos ao Mestre não dão frutos, portanto, são ramos falsos, por conseguinte a videira a que estão ligados não é a verdadeira.

Padre Andre

Pe. André Vital Félix da Silva, SCJ. Mestre em Teologia Bíblica pela Pontifícia Universidade Gregoriana. Professor nos Seminários de Campina Grande-PB, Caruaru-PE e João Pessoa-PB. Membro da Comissão Teológica Dehoniana Continental – América Latina (CTDC-AL).

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Uma resposta para “Eu sou a videira, a verdadeira” (Jo 15,1)

  1. Elisalva de Fátima Madruga Dantas disse:

    Excelente texto sobre o evangelho de domingo! Além de trazer uma percuciente explicação da metáfora da videira, utilizada por Jesus, recorrendo para isso à forma como a expressão de João se encontrava em grego, para melhor acentuar o ethos “verdadeiro” dessa videira, o texto nos fornece também ricas informações acerca das constantes comparações presentes na Bíblia, tanto no Antigo como no Novo Testamento, envolvendo a árvore e o homem, iluminando com elas o sentido maior de nossa vida que é vivermos junto a Cristo. Nele buscando os nutrientes indispensáveis para produzirmos bons frutos.

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