“Vós sereis minhas testemunhas…”

Jesus na Comunidade

Por: Pe. André Vital Félix da Silva, SCJ

Este é o mandato de Jesus, segundo o relato de Lucas no final do seu evangelho (Lc 24,48) e no início dos Atos dos Apóstolos (1,8). A palavra testemunha na língua grega é mártir. O que para nós, diante da compreensão de martírio como dar a vida, derramar o sangue, morrer pela fé, assumiu desde os primórdios do cristianismo um caráter deveras importante pois indica o testemunho na sua forma mais excelente.

Tanto é verdade que dizer mártir para nós cristãos é falar de alguém que morreu pela fé, apesar de que o mártir não é, do ponto de vista semântico, sinônimo de alguém que morreu. Por conseguinte, Jesus ao confirmar os discípulos como seus mártires não estava declarando-os destinados à morte como missão, mesmo não excluindo a morte como consequência da missão: “E por minha causa sereis levados à presença de governadores e de reis, para dar testemunho perante eles e perante as nações” (Mt 10,18). Mas constituindo-os seus mártires, Jesus os confirma na missão de levar aos “ausentes” os fatos que os próprios discípulos presenciaram e tomaram parte. Corrobora esta afirmação o critério de escolha daquele que substituirá Judas, o traidor: “É necessário que destes homens que nos acompanharam durante todo o tempo em que o Senhor Jesus viveu no meio de nós, a começar do batismo de João até ao dia em que nos foi arrebatado, haja um que se torne conosco testemunha (mártir) de sua ressurreição” (At 1,21-22).

Portanto, ser mártir de Jesus é prolongar no tempo e no espaço a experiência da sua vida, morte e ressurreição que historicamente foi compartilhada pelos seus contemporâneos, mas possível de ser compartilhada por todas as gerações subsequentes que sintonizam com essa realidade pela adesão de fé às primeiras testemunhas.

Na perspectiva de Lucas, a história da Salvação se articula em três momentos evidenciados nas Sagradas Escrituras: o Antigo Testamento é o anúncio das promessas de Deus, o Evangelho é o registro de que as promessas se cumpriram em Jesus, a partir dos Atos dos Apóstolos dá-se início o tempo do testemunho de tudo isso. Em síntese, Antigo Testamento (ANÚNCIO), Evangelho (CUMPRIMENTO), Atos (TESTEMUNHO).

Um dos capítulos da Cristologia versa justamente sobre o fato da ressurreição. Acontecimento que, mesmo sendo captado na história, supera qualquer entendimento puramente racional ou qualquer tentativa de explicação, e, portanto, alcança-se apenas pela fé. Buscando-se uma base escriturística para iniciar o discurso sobre a ressurreição, parte-se geralmente daquilo é os evangelhos narram como acontecimentos circunstantes: o sepulcro vazio e as aparições. Porém, tais acontecimentos, por si, não servem de base segura para afirmar a verdade da ressurreição. O primeiro, muito suscetível a diversas causas, revela-se insuficiente para confirmar a ressurreição.

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Afirmar a ausência do corpo de Jesus no sepulcro não significa necessariamente que Ele ressuscitou. O próprio Mateus acena para uma outra possibilidade de causa para a ausência no sepulcro: “Os discípulos vieram de noite e o roubaram…” (Mt 28,13). Marcos tem o cuidado de antepor o fato da ressurreição à ausência do sepulcro: “Ressuscitou, não está aqui…” (Mc 16,6). Destarte, o evangelista indica que a causa do sepulcro vazio é a ressurreição, isto é, o sepulcro está vazio porque ressuscitou, e não o contrário. Pois como vimos, a ausência do sepulcro pode ser interpretada a partir de outras causas. Portanto, retorna-se ao ponto de partida do testemunho cristão: a fé, que, por sua vez, não se baseia numa constatação empírica, o sepulcro está vazio; mas de uma adesão à pessoa de Jesus, pois Ele disse que ressuscitaria.

caravaggio-The Incredulity of Saint Thomas-1601-02-Sanssouci, PotsdamPor outro lado, a cristologia também faz a sua especulação sobre o tema da ressurreição considerando os relatos das aparições. Estas são apresentadas com riqueza de detalhes e estão relatadas nos quatro evangelhos. Mas, por sua vez, não servem de argumentação para a fé na ressurreição. Pois em um desses contextos é a própria palavra do Ressuscitado, sujeito e objeto da aparição, que afirma ser bem-aventurado aquele que acredita que Ele ressuscitou, sem tê-lo visto (cf. Jo 20,29). Assim, colocamo-nos diante de um problema fundamental para compreender o que de fato significa ser testemunha do ressuscitado.

Evidentemente, não podemos simplificar a discussão, mas a insuficiência das provas da ressurreição (sepulcro vazio e aparições), é superada pelo testemunho que os próprios evangelistas nos dão quando afirmam que o fato decisivo para crer na ressurreição de Jesus não reside na constatação pontual do acontecimento, quase que querendo fotografá-lo, mas na experiência de seguimento d’Aquele que, nas suas palavras e ações situadas no palco da história, testemunhou a sua divindade imortal.

Com efeito, Aquele cuja vida e palavras testemunharam a sua força vital e suas promessas de vida plena, não poderia ser tragado pela morte definitivamente. Ser testemunha do ressuscitado exige aproximação ao Verbo encarnado. Percorrer os seus caminhos, assumir a sua missão, crer na sua palavra, são exigências e condições para crer na sua ressurreição. Ao longo do evangelho, há quase que um refrão que afirma a ressurreição de Jesus como coroamento de toda a sua vida. Os discípulos acreditaram que Ele não permaneceu morto porque foram testemunhas da sua indestrutível força de vida quando o acompanharam pelas estradas empoeiradas da Palestina, quando presenciaram sua convicção de que Deus é Pai e ama a todos, quando o viram dar a vida como expressão de amor gratuito e verdadeiro, no escândalo da cruz viram a força de vida que Ele tinha.

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Em suma, ser testemunha do ressuscitado é ser alcançado pela força vital que d’Ele promana e que diante dos efeitos que em nós produz, torna-se argumento irrefutável: “Este mesmo Jesus, Deus ressuscitou e disso nós somos testemunhas” (At 2,23; 3,15)

Pe. André Vital

Pe. André Vital Félix da Silva, SCJ. Mestre em Teologia Bíblica pela Pontifícia Universidade Gregoriana. Professor nos Seminários de Campina Grande-PB, Caruaru-PE e João Pessoa-PB. Membro da Comissão Teológica Dehoniana Continental – América Latina (CTDC-AL).

 

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Uma resposta para “Vós sereis minhas testemunhas…”

  1. Salesia de Medeiros wanderley disse:

    Excelente artigo Padre André. Aliás, não me surpreende, o Senhor conhece a Palavra de Deus como poucos e é um Professor que se destaca no Seminário Arquidiocesano da Paraíba, e certamente nos demais Seminários, não só pelo alto nível de conhecimento, mas, também, porque é um vocacionado para o Ensino. Parabéns!

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