BRE: 12 de agosto: Conhecendo o itinerário espiritual do Padre Dehon

12 de agosto: Conhecendo o itinerário espiritual do Padre Dehon

DehonoriginalA celebração da memória da morte do Venerável Padre Leão Dehon é um grande momento de comunhão da Família Dehoniana. Para nós o “12 de agosto” é ocasião de rendermos graças a Deus pelo dom de sua vida e aprofundarmos a partilha do seu carisma. Na sua história contemplamos uma particular experiência de fé que se traduziu num caminho feito em etapas. É esse “itinerário” que queremos conhecer para encarná-lo com fidelidade criativa em nossa vida e missão.

A nossa vida cristã é seguimento a Jesus Cristo na graça do Espírito pelas estradas do Reino de Deus. São Paulo entendeu esta verdade ao afirmar: “Esquecendo o que fica para trás, lanço-me para o que está à frente. Lanço-me em direção à meta, para conquistar o prêmio que, do alto, Deus me chama a receber, no Cristo Jesus” (Fl 3,13b-14). O próprio Papa Francisco tem repetido inúmeras vezes “que não entende um cristão que não caminha”, pois ser cristão significa “estar a caminho”. Essa é a nossa vida no Espírito (cf. Rm 8,1-30) vocacionada à santidade, pois o Senhor nos diz “sede santos como o vosso Pai celeste é santo” (Mt 5,48).

10393861_10202466392005089_6583905503443507285_nQuando falamos de “itinerário espiritual de Padre Dehon” nos referimos ao seu caminhar espiritual durante a vida. Este “caminho” se entende como “o jeito próprio de Dehon” em viver a vida no Espírito e buscar a santidade na longa jornada da existência. Olhando para a sua história, vemos que, guiado pelo Espírito e atento à realidade concreta da vida, Padre Dehon respondeu à graça divina com disponibilidade. “Seguir a condução do Espírito Santo, corresponder às inspirações divinas; esta deve ser a minha constante e toda a minha vida. Mediante o Espírito, o Coração de Cristo me fala e me guia” (OSP III, 549). Foi esta docilidade ao Espírito que o conduziu na busca que orientou tudo o que era e fazia: “Preciso ser santo. O Coração de Jesus espera isto de mim. A minha missão o exige” (NHV XIV, 71).

Padre Dehon viveu num amor ardente pelo Coração de Jesus, chegando a afirmar que este amor era a única via pela qual podia andar porque era o seu caminho e a sua vocação (cf. NQT 69, fevereiro de 1905). Para ele essa “vida de amor” era o melhor caminho para se chegar ao “puro amor” que se traduzia na oblação da própria vida. Na espiritualidade do Coração de Cristo aberto na cruz (Jo 19,31-37) ele encontrou a expressão mais forte do amor redentor de Deus pela humanidade.

A vida de Padre Dehon conheceu diversas etapas que foram caracterizadas por aspectos particulares da sua idade, do local em que morava, das pessoas que encontrava e com quem convivia, das suas leituras e dos estudos, das influências culturais e eclesiais, da realidade socioeconômica e da sua vivência pessoal da fé. Essas particularidades foram moldando a sua vida e hoje podemos redesenhá-la em oito grandes etapas que correspondem ao seu progressivo itinerário espiritual: “Etapa familiar” (1843-1855), “Etapa do Colégio de Hazebrouck” (1855-1859), “Etapa de Paris” (1859-1865), “Etapa de Roma” (1865-1871), “Etapa de São Quintino” (1871-1877), “Etapa de fundação e consolidação da Congregação” (1878-1888), “Etapa de intensa ação cultural e social” (1889-1903) e a “Última etapa” (1903-1925).

Ao celebrarmos o dia 12 de agosto, a Família Dehoniana é convidada a refletir sobre a “Última etapa” da vida do nosso Fundador, pois esta representa uma verdadeira síntese dos seus 82 anos de existência. É neste período que o seu itinerário espiritual recebe um novo influxo da graça divina conduzindo-o à sua “páscoa definitiva”. Já em 1913, revendo a sua vivência espiritual, Padre Dehon afirmava que sua vida foi “uma vida mista de dias bons e dias de grande miséria” (NQT XXXV, 6 de janeiro de 1913).

10Dehon before S.H. 1Nos seus últimos anos, Padre Dehon tinha consciência de que se aproximava o momento de sua morte. Ele viveu este período como um exame de consciência que o abriu à misericórdia de Deus na gratidão pelo seu amor. Foi esta consciência que lhe ajudou a aprofundar sua experiência de fé. É neste momento que encontramos verdadeiras pérolas espirituais em seus escritos que nos mostram a profundidade de sua espiritualidade.

“Recordo todas as pessoas piedosas que conheci durante a vida; penso revê-las brevemente.” (NQT XXXV, 175-176; novembro de 1912)

“A oração para mim se tornou fácil e a união com Nosso Senhor é intensa. Deo gratias! Na oração e na adoração acontece o face a face com Jesus presente na Eucaristia. É um colóquio fácil e ardente.” (NQT XXXIV, 174-175; novembro de 1912)

“Para a minha vida interior não desejo mais as graças extraordinárias. Aspiro a um crescimento quotidiano da graça santificante mediante a oração, o dever, a Eucaristia, a prática da virtude.” (NQT XLI, 1-2; junho de 1917)

 “Nosso Senhor quer uma amizade ardente e absoluta” (NQT XXXV, 31; abril de 1913). “Deverei ser um São João, um amigo, um consolador para Jesus Hóstia; estou muito longe disto!” (NQT XLIII, 127; setembro de 1920)

Uma verdadeira síntese do itinerário espiritual de Padre Dehon temos nas páginas do seu diário em janeiro de 1925. Assim escrevia: “É o último caderno, e talvez o última ano. Fiat!… A minha corrida se cumpre. É o crepúsculo da minha existência… O ideal da minha vida, o voto que eu formulava entre as lágrimas na minha juventude, era de me tornar missionário e mártir. Me parece que aquele voto tenha se cumprido. Missionário eu sou pelos meus mais de cem missionários que vivem em todas as partes do mundo. Mártir eu sou pelas consequências que nosso Senhor deu ao meu voto de vítima, sobretudo de 1878 a 1884…” (NQT XLV, 1-2)

Cristo Crucificado y Madre Dolorosa (Palencia)Em junho de 1925, Padre Dehon escreveu: “Para a festa do Sagrado Coração faço meu este pensamento de Santa Margarida Maria: ‘Ó Coração de Jesus, definho pelo desejo de ser unido a ti, de possuir-te, de mergulhar-me em ti, que és a minha morada para sempre” (NQT XLV, 63).

A vida e a morte de Padre Dehon compreendem-se como uma verdadeira experiencia do amor de Deus expressa no símbolo do coração transpassado do Salvador. Ao lado do seu leito nos últimos dias de vida, Padre Dehon conservava uma pequena estampa com a imagem de São João que repousava sobre o peito de Jesus. “Dizia frequentemente aos visitantes, apontando com o dedo para a imagem: ‘Eis o meu tudo, a minha vida, a minha morte, a minha eternidade.’” (Philipe, Carta Circular 1, n. 22). Nas suas últimas palavras encontramos uma vibrante profissão de fé que sintetiza uma história de profunda espiritualidade e aponta para o seu horizonte definitivo no encontro com o Senhor na eternidade: “Por Ele vivi, por Ele morro”.

Um caminho de “vida e morte pelo Coração de Jesus”. Eis o itinerário espiritual percorrido por Padre Dehon. É justamente esta trilha que nós, membros da Família Dehoniana, queremos refazer com fidelidade e criatividade. Com gratidão pelo dom deste carisma que nos foi dado na Igreja através do nosso Fundador, buscamos revitalizar o nosso compromisso de seguimento a Cristo segundo a sua inspiração. Queremos viver a paixão de sua espiritualidade por uma vida de união à oblação reparadora de Cristo e de cooperação com sua missão redentora para instaurar o Reino do seu Coração nas pessoas e no mundo. 

palme_23

Pe. Gimesson Eduardo da Silva, SCJ

Colégio Internacional Leão Dehon – Roma

Mestrando em Teologia Dogmática na Pontifícia Universidade Gregoriana

Esse post foi publicado em Uncategorized. Bookmark o link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s