BRE – Princípios da Doutrina Social da Igreja (parte final)

15 – Engajar-se politicamente

política

A corrupção e a falta de ética de alguns políticos fazem com que muitas pessoas torçam o nariz quando se fala em política. No entanto a Doutrina Social da Igreja fala do dever do cristão leigo de se engajar politicamente.

Antes de tudo é preciso resgatar o significado primeiro de política, como “a ciência e a arte de governar a cidade – o estado”. Todo grupo humano na medida em que cresce e torna-se mais complexo carece de medidas sistemáticas que o levem a alcançar seus objetivos econômicos e sociais. Daí, a necessidade de uma política e ela não se faz sem políticos, sem pessoas que assumam suas responsabilidades de cidadãos e cidadãs, guiem e governem a polis.

Para o cristão, o fundamento de seu engajamento político será as orientações da lei natural, da ética cristã católica e da Doutrina Social da Igreja, frutos de uma longa tradição e reflexão. Nessa perspectiva, o bem comum será o objetivo final de toda e qualquer ação política, norteando as escolhas, as medidas a serem tomadas e as leis a serem votadas para regular a livre e democrática convivência humana e cidadã. É por isso que, para Paulo VI, “o cristão tem o dever de participar… na organização e na vida da sociedade política” (OA 24s).

O Magistério da Igreja, porém, não deixa de insistir que essa nobre missão deva ser realizada pelos leigos e não pelo clero. Entre outras razões, convém lembrar que a política em favor da nação e do povo passa pelos partidos políticos, e a Igreja, não se identificando nem se considerando, atualmente, representada por nenhum dos partidos existentes, se tivesse sua hierarquia envolvida na condução política, comprometer-se-ia com formas partidárias concretas, podendo condicionar ou induzir os fiéis a uma opção determinada, o que não seria justo.

O cristão deverá, segundo a Doutrina Social da Igreja, valorizar os regimes e partidos democráticos que em seus programas, entre outros fins, incluem a liberdade de religião como expressão de uma liberdade maior, a liberdade da pessoa humana. Todo totalitarismo deve ser afastado e não se deve deixar dominar por ideologias sub-reptícias que facilmente se insinuam no mundo político.

João Paulo II dirá que “para os fiéis leigos o compromisso político é uma expressão qualificada e exigente do compromisso cristão no serviço aos outros” (CDSI 565). Assim o leigo deverá participar ativamente dos debates políticos partidários e assumir suas responsabilidades de cristãos batizados, buscando alcançar o bem comum, a implantação da justiça social e econômica, a promoção do diálogo e da paz no horizonte da solidariedade, tudo isso tendo como inspiração o direito fundamental de participação, a subsidiariedade.

Nesse âmbito, o cristão leigo deve se preparar para o exercício dessa participação que não é fruto de improvisação. Fará parte de sua formação o conhecimento da Doutrina Social da Igreja como palavra oficial do Magistério e fruto de uma reflexão de milênios, onde a pessoa humana é posta em primeiro lugar por ter sido criada à imagem e semelhança do Deus criador.

16 – Mudança de costumes

A Doutrina Social da Igreja evidencia a realidade da pessoa humana como singularidade e como ser social.

A complexidade da realidade faz que não se possa ver a fonte dos males sociais simplesmente nos pecados sociais ou estruturais, mas também no pecado pessoal. Faz parte da nossa fé a afirmação de uma divisão interior presente na pessoa humana, que a acompanha durante toda a vida e contra a qual ela terá de lutar sempre para se aperfeiçoar. Ninguém escapa de uma incapacidade de amar Deus sobre todos as coisas e ao próximo como Deus nos ama. Essa limitação se multiplica na esfera social e estrutural. Em suma é a realidade do pecado original que se torna pessoal, social e estrutural. Aí está a raiz de todos os males sociais, políticos e econômicos. Não há um determinismo histórico ou social que leve às situações de injustiça vividas; o que existe na base de tudo são opções livres, embora não absolutas, de pessoas e sociedades.

Por isso a Doutrina Social da Igreja, além de propor caminhos de reestruturação da sociedade, também apela para a mudança de costumes e para o retorno aos valores espirituais fundamentais da pessoa e das sociedades. Faz-se mister também uma conversão pessoal, uma nova opção de vida que vai além da simples constatação dos erros da sociedade.

A encíclica Gaudium et spes nos indica o caminho da conversão, da mudança dos costumes e do retorno aos valores: “A ordem social e o seu progresso… devem desenvolver-se sem cessar, ter por base a verdade, construir-se sobre a justiça, ser animada pelo amor e encontrar na liberdade um equilíbrio sempre mais humano” (26). São esses os valores fundamentais do cristão que induzirão a novos costumes, atitudes e opções. Isso se alcançará mediante um processo formativo das pessoas e da sociedade.

O cristão deve, portanto, redescobrir e proclamar a verdade sobre a pessoa humana em alto e bom som diante do aniquilamento e manipulação do ser humano, afirmando a centralidade da pessoa. A Igreja como perita em humanidade não pode fugir dessa missão. Precisa também lutar pela justiça, sonho profético do qual Cristo era a esperança e seu mestre. Essa é uma justiça fundada na própria justiça de Deus que é fiel.

Ainda, de acordo com a Gaudium et spes, nós cristãos devemos buscar a ordem e o progresso social, vivendo o amor, como expressão e forma da misericórdia. Amor a todos, inclusive aos inimigos. Amor que vê no irmão o Cristo e dá sentido ao agir humano. E mais: espalhar a liberdade, dom de Cristo pelo Espírito que nos faz livre, redimidos e libertos que fomos de todas as escravidões e restaurados em nossa dignidade plena.

Isso resume o projeto da conversão dos costumes e a volta aos valores cristãos. No dizer do padre Dehon, nosso fundador, trata-se de “implantar o Reino do Coração de Jesus nas almas e nas sociedades”. Aliás, nossa nova série de artigos será justamente sobre o pensamento social de padre Dehon; seu olhar sobre a sociedade de seu tempo (1848-1925) nos trará luz para os dias de hoje, pois suas palavras sempre novas e válidas continuam a educar para o social a Igreja e a sociedade e a nós interpelar como cristãos.

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