9 – A dignidade do trabalho

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A tradição judeu-cristã interpretada erroneamente fez com que se considerasse o trabalho como um castigo, enquanto a Bíblia diz apenas que, após o pecado, ele seria vivido com o suor do rosto.

O trabalho, enquanto participação da pessoa humana na obra da criação, foi e será sempre bom e bonito; as circunstâncias em que ele acontece é que estão marcadas pelo pecado. Essa é a dignidade fundamental do trabalho, pois a Bíblia não hesita em dizer que Deus trabalhou, como trabalharam Jesus e seu pai José. E estes últimos realizaram trabalhos braçais, na antiguidade, considerados de escravos e não dignos do ser humano livre. Além disso, o trabalho possibilita à pessoa o desenvolvimento de todas as suas capacidades humanas e dá-lhe condições de obter o seu sustento para uma vida digna. A escritura ainda diz que o trabalho permite à pessoa praticar a caridade. Portanto, mediante o trabalho, a pessoa não somente transforma a natureza, mas também realiza a si própria, faz-se criadora (LE – Laborem exercens, 9).

Trabalho é, então, toda ação pela qual o ser humano transforma a natureza, colocando-a a seu serviço. É uma atividade cultural, pois se trata de uma interação da pessoa com seu meio ambiente, criando cultura e transformando a natureza. Por conseguinte qualquer tipo de trabalho humano tem dignidade, pois é a pessoa que lhe dá dignidade e, não, o trabalho a ela, diz João Paulo II (LE 6). Nossa sociedade, porém, costuma fazer ao contrário: considera que o trabalho intelectual ou tecnológico dá dignidade à pessoa e perde de vista o fato que a pessoa que faz os trabalhos mais simples é quem lhes dá dignidade.

Daí o trabalho ser um direito e um dever. Direito, pois o Estado deveria criar as condições para que todos os cidadãos tivessem seu trabalho e vivessem de forma autônoma, garantindo a sua subsistência e a da sua família. Dever, porque o ser humano não pode viver sem trabalhar, como um parasita da sociedade (2Ts 3, 10).
Unida à dignidade do trabalho, está a questão da remuneração, do salário que não basta ser mínimo, mas deve ser justo e dar condições ao ser humano de viver com os seus em dignidade. E, no ambiente da família, a mulher deveria ter as condições de trabalhar para sua realização pessoal, para ajudar a manter os seus e a si, mas sempre, se for mãe, com a possibilidade de também cuidar dos filhos. Além disso, sua remuneração deveria ser igual à do homem, no caso de realizar o mesmo trabalho que ele.

A partir de Leão XIII, a Igreja começou explicitamente a preocupar-se com a questão do trabalho, vendo-o como “a chave da questão social”. Desde então, todas as Encíclicas sociais trataram do tema, de modo especial a Laborem exercens (Sobre o trabalho humano), de João Paulo II. Além do que já foi citado, ela lembra que: O trabalho é para o homem e não o homem para o trabalho; a finalidade do trabalho é o próprio homem (LE 6); no sistema capitalista, o trabalho tornou-se uma mercadoria (LE 7); a fadiga une a pessoa a Jesus Cristo (LE 22).

10 – A luta de classes

A luta do cristão de forma alguma se trata de destruir o oponente ou o que pensa diferente. Será uma luta fundada na solidariedade dos trabalhadores em busca do bem comum.

Só o fato de ler esse título já causa prurido em muita gente. Historicamente, foi Karl Marx que viu nesse princípio a força propulsora da história. A luta de classes seria conseqüência inevitável da evolução do capitalismo. Esse pelo seu próprio funcionamento, por uma de suas características inerentes, conduziria a uma concentração cada vez maior de riquezas nas mãos de alguns, à miséria dos operários e à proletarizacão da classe média. Num determinado momento, a classe operária, consciente de que o sistema capitalista era a causa de sua miséria, unir-se-ia em todo o mundo para a luta contra o capitalismo. Vencendo a luta, ela imporia a ditadura do proletariado, como transição necessária, cuja missão seria estabelecer uma sociedade comunista e igualitária.

Várias experiências históricas aconteceram nesse sentido na União Soviética, na República da China, no Vietnam, em Cuba; apenas algumas subsistem, ainda hoje, capengando e aceitando, para sobreviver, alguns princípios do próprio capitalismo que repudiavam. Como várias delas foram impostas por forças internas ou externas, com o decorrer do tempo perderam o apoio do povo. Também porque não conseguiram realizar o que prometeram e entraram em crise, quando não desapareceram completamente, como por exemplo, no Leste europeu. Porém é preciso reconhecer que nessas experiências houve aspectos positivos, sobretudo na educação e alfabetização das massas bem como no setor saúde.

No mundo ocidental e capitalista, a classe operária conseguiu muitas de suas conquistas através do sindicalismo, às vezes radical, mas de resultados e sem chegar ao paroxismo da luta de classes. A boa organização sindical alcançou resultados significativos nas nações democráticas desenvolvidas. O mesmo não ocorreu no terceiro mundo.

À luta de classe, a Doutrina Social da Igreja contrapõe a solidariedade e o sindicalismo como respostas efetivas e produtivas para resolver os problemas da miséria dos pobres e do proletariado urbano e rural. A luta de classes, como propugnava Marx, aparece para os cristãos, hoje, como uma proposta anacrônica, mas os problemas que pareciam exigi-la persistem e não se pode ignorá-los. O número dos miseráveis no mundo aumenta, o capitalismo se travestiu de neoliberalismo, mas continua a gerar fome e miséria. O fosso entre países ricos e pobres tende a aumentar. A exploração não é só de uma classe por outra, mas de multidões de famintos e de excluídos do terceiro e quarto mundos que são descartáveis no âmbito de uma economia globalizada, apresentada como a salvação.

É interessante observar, que o Papa João Paulo II, em sua encíclica sobre o Laborem exercens (Trabalho Humano) usa o termo luta, mas com significado positivo. A luta deve fazer parte dos programas sindicais e é um seu instrumento de conquistas democráticas e sociais. Os sindicatos, diz ele, “são um expoente da luta pela justiça social, pelos justos direitos dos homens ao trabalho… esta luta deve ser compreendida como um empenho normal das pessoas em prol do justo bem… que é a justiça social” (LE 20).

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